domingo, 15 de janeiro de 2017

ENTREVISTAS SELECIONADAS

Mais passagens históricas do surf brasileiro

Para concretizar o livro A GRANDE HISTÓRIA DO SURF BRASILEIRO um dos mais importantes pedestais em que estou apoiando este projeto é a coleção de entrevistas que venho compilando nos últimos quatro anos. Nossos pioneiros têm histórias interessantíssimas.
NA CASA DE RUSSELL COFFIN (AO CENTRO), EM SAQUAREMA, COM OTÁVIO PACHECO
FOTO: JACQUES NERY

Estas entrevistas (já tenho ao redor de uma centena em meu computador), trazem detalhes que nunca caberiam dentro dos 5 VOLUMES de minha obra impressa, pois terei de adotar uma abordagem mais sucinta colocando as informações mais importantes e apenas pequenos trechos, entre aspas. Já aqui em meu BLOG – “Histórias do Surf”, posso dar asas aos pensamentos e falas completas, histórias detalhadas destes surfistas pioneiros que viveram e protagonizaram a sedimentação do esporte em nosso país.
Trago aqui neste post 4 grandes personalidades que fizeram parte desta história, para os que curtem uma leitura mais aprofundada de passagens pitorescas da evolução do surf. Voltemos às raízes.
Garanto que é um belo entretenimento. Divirtam-se...

IRMÃOS PAIOLI
O que vão ler a seguir é um esboço, o início do texto, que foi preparado a pedido do editor Adrian Kojin, na época em que ele dirigia a redação do TSJ (The Surfer’s Journal) Brasil. Essa matéria ficou inacabada, pois a revista encerrou as atividades no Brasil antes dela ser publicada. Eu estava montando em estilo perfil, mas a base é uma entrevista que fiz com os dois célebres irmãos, na casa de meus pais no Jardim Paulista, em janeiro de 2013.

Sugestões de Título: FROM SCRATCH
(seria o título ideal se fosse a edição do TSJ em inglês)
POR TENTATIVA E ERRO
ou
PARTINDO DO “QUASE” NADA
Os irmãos José Carlos Paioli e Francisco Paulo Paioli são verdadeiras instituições do surf paulista, mais do que lendas vivas, são personagens folclóricos, carismáticos e surfistas inveterados adentrando os 60 anos de vida na ativa. Conhecer a história deles é cavar em busca de uma das raízes mais profundas do surf paulista.

ZÉ E CHICO PAIOLI, IMAGEM RECORTADA DO PORTAL UOL
José Carlos Paioli (1949)
Francisco Paulo Paioli (1951)

Todos sabemos dos atos pioneiros de surf em Santos nos Anos 1930, com Osmar, Thomas, Juá e suas pranchas estilo Tom Blake. Mas o surf em São Paulo começou a andar “de vez” apenas no início dos anos 60. Aqui temos diversas histórias, em praias diferentes, com artefatos distintos, pranchas construídas de forma diferenciada. Mas quando perguntamos a todos os pioneiros, sempre, os irmãos Paioli aparecem como referência.
Eles começaram a surfar quando moravam na praia do Itararé, em São Vicente e nunca deixaram de lado sua paixão da infância. Participaram do primeiro campeonato em São Paulo, em 1967 e até hoje não perdem os encontros para veteranos, ou as etapas do SP Contest.
POSTER DE EVENTO REALIZADO EM HOMENAGEM A CHICO PAIOLI NA RIVIERA DE SÃO LORENÇO, EM DEZEMBRO DE 2015. ESTA FOTO FOI TIRADA NA PRAIA DE PITANGUEIRAS, NO GUARUJÁ, EM 1967

Zé Paioli é um industrial, trabalha com um sistema de detecção de trincas em equipamentos fabris e tem casa na Barra do Una, São Sebastião, no litoral norte de São Paulo, seu pico local é o canto direito da praia de Juquehy, onde muitos o consideram o “xerife” da área.
Chico por sua vez, sempre com uma atitude mais “flamboyant”, faz barulho em todos os lugares que chega, cumprimentando a todos e causando alvoroços. Além de ter se transformado em um atleta vencedor, campeão paulista e brasileiro de longboard máster, no final dos anos 80 e início dos anos 90 é considerado um dos técnicos de surf mais categorizados do ramo.
Eles mudaram de São Vicente para Moema, na capital paulista, em 1967. A Escola Paioli de Natação sempre foi um marco do bairro na esquina das ruas Pavão com Canário. O pai deles, Carlos Paioli, falecido em 2005, aos 85 anos, já era um atleta por opção, nadou no Rio Tietê quando ainda era limpo, os filhos se transformaram em exímios nadadores. Foi o pai deles que organizou, ao lado de Geraldo Faggiano, o primeiro campeonato de surf da Ilha Porchat em 1968, que contou com as presenças dos cariocas Carlos Mudinho e Rico de Souza.
Vamos conhecer como eles se envolveram com o surf, foi a partir de 1964.

ZÉ PAIOLI SURFANDO NO GUARUJÁ EM 1974
FOTO: JUNJIRO NAKAMARA

PRIMÓRDIOS DO SURF NO ESTADO DE SÃO PAULO
ZÉ: “Comecei a me interessar pelo surf pois eu era nadador, foi vendo uma reportagem da revista O Cruzeiro, do pessoal do Rio de Janeiro, que já havia começado. Na reportagem falava da história do surf, do Hawaii, aquelas coisas todas. Mostrando como o esporte estava se desenvolvendo no Brasil e no Rio já tinha um pessoal praticando.
Eu ia para a praia em São Vicente, mas não havia visto ninguém surfando. Depois disso vi dois irmãos, que eram da família Montenegro. Eles estavam com uma prancha de madeirite, na praia do Itararé. Eu nunca havia visto uma prancha ao vivo. Então fui lá e perguntei como eles haviam feito a prancha. Eles me disseram para pegar uma tábua de madeirite de construção, cortar no meio e levar numa marcenaria, fazer o outline, fazer um rasgo para colar uma quilha com o formato da barbatana de um tubarão e colar com Araldite. Eles nos explicaram como fazer. Eram nossos vizinhos ali no Itararé, em São Vicente.
Isso foi em 1964, eu tinha 15 anos e era colega do irmão mais velho do Cocó, o Geraldo Faggiano Junior, fomos à noite numa obra que tinha na Av. Presidente Wilson, na esquina da rua da nossa casa (tinha uma pilha de madeirites lá) e pegamos duas tábuas. Uma para cada um. Levamos para casa e no dia seguinte fomos em uma marcenaria lá perto, na Marechal Deodoro, perto de onde hoje é a oficina do Delton Menezes – Classic Longboards.
Primeiro cortamos. Foi tudo de olho, fui orientando na hora. Nem lembro de ter reparado na prancha dos Montenegro se elas tinham envergadura, só o detalhe da quilha. Demos uma arredondada na borda, lixei e pintei a prancha. Naquela época era um compensado de madeirite bem melhor que os de hoje, ele não desfolhava, era mais grosso, a qualidade era muito superior. Em casa eu abri um rasgo, coloquei uma quilha, sem envergar. Pintei ela de preto. Depois de um tempo descobrimos como envergar a prancha, esquentando o madeirite.
O PRIMEIRO SURF
“Quando ela ficou pronta peguei meu irmão Chico, Paulinho nosso primo e pedi para meu pai me levar na praia, era um dia chuvoso, pavoroso, horrível. Foi todo mundo em um Fusca, nem lembro como chegamos na praia. Peguei a prancha... Só queria saber de experimentar ela. Eu não sabia de parafina, de vela, não sabia de nada. Fui lá para dentro do mar e remava, mas não conseguia entrar nas ondas.
Eu era um bom nadador, fui para a água e fiquei nadando com a prancha até um certo ponto. Fiquei uma a duas horas na água e consegui ficar em pé em uma onda. Nossa, quando eu consegui... Caramba! Maravilhoso. Foi a primeira experiência minha. Eu tinha 15 anos. O Chico tinha 13, ele nem surfou nesse dia. Não tinha mais ninguém na praia. Ninguém. Eu não via ninguém surfar no Canal 1, Canal 2. Mesmo aqueles irmãos Montenegro, eu nunca mais os vi. Depois o Chico começou a ir comigo”.
CHICO: “Eu acompanhava ele, pegava a prancha dele e surfava. A gente ia para o fundo e entrava na onda estourada. Aquela onda do Itararé tem muitas seções. A gente entrava na espuma e de repente abria uma parede, do nada, dava para cortar a onda. Foi fácil de aprender”.

ZÉ: “Tem uma história que quando nós roubamos a segunda madeirite, a notícia começou a espalhar na praia. E o pessoal começou a correr atrás e a pilha que tinha naquela obra começou a baixar. Aí o que acontece? Tinha uma turma indo lá de noite e os operários da obra pegaram os caras e levaram para a delegacia. Foram presos. Só que eram moleques. O problema é que quando começou todo mundo a querer saber, nós demos a letra de que era naquela obra que tinha os madeirites. Começou a baixar a pilha até que pegaram os caras. Isso já era em 1965, ainda surfávamos com pranchas de madeirite. Aos poucos foram aparecendo mais surfistas”.
CHICO: “Na verdade foi uma coisa muito rápida, que fica difícil você estabelecer: quem, como, quando”.
VAMOS CONSTRUIR PRANCHAS DE FIBRA
ZÉ: “A primeira prancha de fibra que a gente fez, foi depois que apareceu o Jô Hirano e o Manoel dos Santos, quando a gente estava surfando no Itararé com pranchas de madeirite, eles apareceram com duas pranchas ocas (de fibra). Uma cada um. Era oca e a envergadura dela parecia que era para baixo. Eles ficavam bem mais no fundo que a gente, pois as pranchas boiavam. Nós vimos aquilo e ficamos loucos”.
NOTA: As pranchas não eram ocas eram de isopor. O desenvolvimento do surf em São Paulo ocorreu em diversos focos e com iniciativas diferenciadas.
Em 1965 eles estavam com pranchas de madeirite. Nessa época apareceram as pranchas ocas “caixa de fósforo”, também de madeira. Em 1966 ouviram falar do Homero Naldinho (tenho entrevista ainda inédita com ele). Zé, depois de uns três meses que estava surfando viu uma prancha São Conrado, mas já estavam começando a produzir pranchas de isopor e fibra com o pai de Cocó (Eduardo Faggiano). Ainda estou procurando algumas peças deste quebra-cabeças para encaixar aqui. O fato é que Zé e Chico Paioli foram instrumentais no desenvolvimento do surf brasileiro.

Vejam mais algumas informações nestas postagens mais antigas.
MAS VOLTEM PARA LER O RESTO, POIS AGORA VAMOS AO RIO

QUADRO QUE ESTAVA NO QUEBRA-MAR DE SANTOS
NA TURMA, JÔ HIRANO É O PRIMEIRO À ESQUERDA E ZÉ PAIOLI O ÚLTIMO À DIREITA

Zé e Chico Paioli me passaram diversas informações, recortes de jornal e resultados dos primeiros campeonatos de surf realizados em São Paulo nos anos 1960. Ainda farei uma postagem abrangente sobre estes eventos, com fontes cruzadas e belas fotos que existem disponíveis. Sem contar a brilhante partição de Chico Paioli como técnico de diversos surfistas vencedores na Era da Abrasp, a partir dos anos 80 e 90.

Nossa história permanece em 1964.



ARDUÍNO COLASSANTI
Arduíno Colassanti nos deixou em 2014, acabei não tendo a oportunidade de entrevista-lo pessoalmente, mas Rafael Mellin, do Grupo Sal, me cedeu (na íntegra) o áudio da entrevista feita para a série de programas 70 E TAL que foram exibidas no Canal OFF. Quem conduziu esta entrevista foi Julio Adler, em fevereiro de 2013.

ARDUÍNO COLASSANTI
Livorno 15 de fevereiro de 1936
Niterói 22 de fevereiro de 2014

Arduíno, nascido na Itália, radicado no Brasil ainda adolescente, era uma das estrelas daquele Arpoador dos anos 1960, sua história é fantástica, ganhou notoriedade como galã de cinema, participando de mais de 20 longas metragens, diversas pornochanchadas de sucesso. Da turma da pesca submarina, ganhou dinheiro como mergulhador profissional, muito tarimbado, trabalhando para a Petrobras e até como consultor internacional para mergulho no Brasil. Em anos mais recentes sua participação na história do surf brasileiro toma peso. Vamos ver o que ele tem a falar sobre isso. Destaco inicialmente a mais impactante frase da série 70 E TAL.

“Eu sou vagabundo, gosto de ficar na praia, ver o pôr de sol (nas pedras do Arpoador), bater palmas.  Eu sou vagabundo e tenho até um certo orgulho de ter dado a volta na sociedade”.

ARDUÍNO COLASSANTI, NO ARPOADOR, EM MEIO A DOIS AMIGOS
IRENCYR BELTRÃO E ARDUÍNO DE SUNGA, MADEIRITES NO ARPOADOR
FOTOS: ACERVO PESSOAL

ARDUÍNO: “Meu interesse pelo mar vem desde criança, mesmo na Itália, nas férias, íamos sempre para uma cidadezinha de pescadores à beira-mar passar as férias, uma aldeia chamada Porto San Giorgio, no Adriático. Eu sempre adorei o mar. Aprendi a nadar sozinho. Sempre gostei de mergulhar também, de reter meu fôlego. Era uma exibição que meu pai fazia de ficar um minuto sem respirar. Eu via ele enfiar o rosto na água e ficar um minuto, aquilo me entusiasmou muito e eu sempre gostei de mergulhar. Mas o início do mergulho mesmo foi quando eu coloquei uma máscara e isso aconteceu no Arpoador. Eu me maravilhei com a vida marinha, os peixes, as esponjas, estrelas, enfim... Tudo que pinta embaixo d’água e que é muita coisa.
Na época que eu comecei só existia um modelo de máscara na Casa da Borracha e como meu rosto era muito pequeno eu tinha que colocar duas rolhas debaixo das tiras, para poder apertar a saia da máscara contra o meu rosto. Como eu disse, foi um alumbramento e eu comecei a mergulhar regularmente. Para ir para a praia eu saia do Jardim Botânico, do Parque Lage, de bonde, naquela época ainda tinha bonde, era uma delícia. Levava uma tábua de jacaré, a máscara e as nadadeiras. Se tivesse dando onda eu ia surfar, se estivesse calmo eu ia mergulhar atrás das pedras do Arpoador com a máscara.
A turma era o Irencyr Beltrão, o eterno Jorge Grande, que era mais velho que a gente e quando chegamos a praia ele já era mitológico e a gente chamava ele de Matusalém, só porque era um pouco mais velho do que a gente. Tantos outros, Gil Laport. Jorge Paulo Lemann, ia à praia e quando chegaram as primeiras madeirites ele era o que pegava melhor. Lembro bem do amigo Jorge Paulo e dos cantores irmãos lourinhos (Valle), os outros não permaneceram nem na memória, nem na praia.
Era uma turma eclética e os estrangeiros frequentavam muito o Arpoador, não sei se pelas pedras, ou as ondas. Era uma variedade de pessoas que embelezava a praia, dava valor e frequentavam muito, tinha a turma dos franceses, dos alemães. Esses estrangeiros que criaram um clima mais liberal nos anos 50 e início dos anos 60. Os gringos namoravam com mais ardor, livremente.
A turma dos músicos, Ronaldo Bôscoli também ia, Menesca, pesquei muito junto com Roberto Menescal. Íamos até a casa de um outro amigo músico em Iguaba Grande para pescar em Cabo Frio, Arraial do Cabo. Só que esses músicos, chegava a noite, eles “biritavam” e nós, querendo pescar, eu, Menesca, Gilberto Laport, ficávamos roendo as unhas e eles roncando de manhã por causa da birita.
O primeiro surfista que eu vi de pé em cima de uma prancha foi o Paulo Preguiça (Tati), que era câmera da TV Tupi e quando estava de ressaca e as ondas vinham lá de trás no Arpoador ele aparecia com uma prancha que as pessoas usavam para pegar ajoelhados, que se chamava porta de igreja, porque era uma coisa quase quadrada, só era um pouco arredondada na proa, na frente. Ele pegava o início da onda no pontão e quando dava aquela enchida, que a onda dá ali, ele ficava em pé na prancha, descia um trechinho e caia. Foi o primeiro que a gente viu surfar em pé.”

EMBLEMÁTICA FOTO DE ARDUÍNO COLASSANTI COM UMA PRANCHA PORTA DE IGREJA NO ARPOADOR
FOTO: ACERVO IRENCYR BELTRÃO

ARDUÍNO: “Aí, eu resolvi fazer uma prancha tipo havaiana, só que o material que a gente tinha aqui, que era o isopor, era corroído pela resina de poliéster. Eu fiz várias tentativas de isolar o isopor da resina, mas sempre ficava um furinho e com isso destruí umas três pranchas, que eu tinha feito com muito trabalho, esculpindo no isopor. Aí eu fui na Shell e eles me indicaram a resina epóxi e de fato eu consegui fazer a primeira prancha coberta com fibra de vidro e resina epóxi. Fiz de orelhada.
Bem, eu estava nas minhas primeiras experiências com esta prancha, quando pintou no Rio – Peter Troy. Um australiano que tinha ido surfar no Peru, desceu pelo Amazonas e veio parar aqui no Rio e foi parar no Arpoador, porque era a praia dos surfistas. Ele estranhou muito as pranchas de madeirite, que era o que a gente usava para surfar naquele tempo. O problema é que ele estava doente, nessa passagem pelo Amazonas ele pegou algumas doenças tropicais, provavelmente todas, pois era um gringo, da Austrália. E ele se curou na casa do Irencyr, o Barriguinha que também era surfista, ele foi tratado lá porque o pai dele era médico.
Quando Peter Troy ficou bom, veio para a praia. Eu emprestei logo a minha prancha e ele deixou a gente de boca aberta. Ele ANDAVA na prancha. Estávamos acostumados com as madeirites e ainda usávamos as nadadeiras e assim você não se mexia muito em cima da prancha. Aí entrou um sudoeste e resolvemos ir até o Recreio, para ele mostrar mais e de fato ele pegou uma onda, deu um bottom turn, aquela virada no fundo da onda, no cavado, rapidíssimo e muito radical, muito pra dentro da onda. Na segunda tentativa ele foi dar o mesmo bottom turn, para correr até o bico da prancha, mas a virada foi tão brusca que ele arrancou o fundo da prancha. A quilha estava presa num isopor mais fino, porque o isopor era caro. Ele arrancou tudo.”
Julio Adler pergunta da prancha que ele fazia no próprio Arpoador e com o vento grudava um monte de coisas na resina que ainda não havia secado.
ARDUÍNO: “Isso é uma visão do Barriga, que é um perfeccionista, quando ele fez a dele, deu brilho com uma escova de dente. Imagina, dar brilho com uma escovinha numa prancha de três metros. Ele realmente é meticuloso. E eu nem tinha espaço onde fazer a prancha que não fosse a praia. É que eu não tinha outro lugar. Depois achei uma garagem de uma ex-namorada minha. Mas até então eu não tinha onde fazer as pranchas, então fazia na praia. Era até divertido, tinha as meninas que passavam por ali.
Quando eu ia até a praia desde o Parque Lage, eu levava material para todas as atividades. Até que comecei a namorar uma menina que morava na R. Joaquim Nabuco, aí ficava mais fácil do que trazer tudo de bonde. Eu tinha que estar preparado para tudo. Os que moravam ali perto, em Ipanema, olhavam pela janela e se o mar estivesse de ressaca iam surfar, se estivesse manso já sabiam que era dia de mergulho.
Em meados dos anos 1960 começou a ficar mais crowd, me lembro que um dia chegando na praia com um colega, olhei assim e contei 16 pranchas no Arpoador, virei para o meu amigo e falei: ‘Olha, nosso esporte acabou’. Agora vamos ter que brigar para pegar ondas e de fato foi o que rolou. Dezesseis pranchas hoje é um dia vazio. RISOS. Acho que só no inverno, com água gelada e chovendo.
A primeira geração dos surfistas foi se afastando porque para surfar, você precisa surfar bem. E para surfar bem precisa surfar todo dia e as obrigações da vida acabaram afastando os mais diligentes. Só os vagabundos que nem eu que continuaram.
Mergulho para mim virou um trabalho, eu trabalhei na Petrobras sou consultor para o Brasil. É uma profissão. É preciso ser muito treinado para trabalhar nisso. É preciso ter capacidade. Trabalhei como mergulhador, fiz pesca de mergulho, mergulho para fotografar, mergulho contemplativo, para admirar.
Quando mudei para Niterói, fiquei no mergulho porque não tinha lugares de ondas propícias aqui por perto. Decidi não ter carro, para nunca ser pego na ponte em congestionamentos de 3 horas... Vou de barco.”
Julio pergunta o que acha das revistas de surf estarem procurando ele hoje (2013), como pioneiro do esporte?
ARDUÍNO: “Foi legal a gente ser reconhecido, ter um lugar ao sol. No início, por uma certa má compreensão da sociedade, da maioria, com relação aos surfistas, eu lembro que no paredão do Arpoador escreveram “FORA COM A CORJA DO SURF”, picharam em letras de dois metros. Obviamente não era uma citação simpática. Mas depois foi se criando um certo romantismo na história toda e passamos a ser bem aceitos. E aí apareceram os especialistas, que só queriam saber de ondas. Se não tivesse ondas no Arpoador, iam buscar em outro lugar. Coisa que no meu tempo não se fazia. Houve ao longo dos anos essa variação no esporte e na própria aceitação do esporte.
A prancha do Russell Coffin ficou sendo a única durante um tempo, foi a prancha em que o Peter Troy deu a demonstração de como se surfava. Hang Ten e essas coisas. Foi um choque cultural, realmente, porque não só ele mostrou a possibilidade de manobras com a prancha, como desenhou até um gabarito, para a gente fazer as nossas. E eu havia descoberto a técnica do isopor com resina epóxi, então ele deixou um gabarito para fazermos as pranchas. A minha por exemplo tinha 3 metros e meio, era um absurdo de grande. Era tão flutuante que eu me lembro do Persegue (Jorge Bally), que ficou em pé para olhar golfinhos de cima dela – era como uma stand up.”
Você nunca pensou em pegar onda de SUP?
“Não posso mais pegar sol – câncer de pele.”

Vamos passar o bastão para outro importante protagonista nesta história.

RUSSELL COFFIN
 RUSSELL EM SAQUAREMA
FOTO RENATA COFFIN

Esta entrevista foi realizada em agosto de 2015, em Saquarema. Russell Coffin nasceu em 17/1/1949 em Niterói – RJ.
RUSSELL: “Meus pais são Americanos. Quando aconteceu a II Guerra Mundial ele não podia servir porque teve um acidente e ele tinha problema de vista, então ele não se qualificava para o campo de batalha e a CIA, que naquela época nem tinha esse nome, era OSS (Agência de Serviços Estratégicos) – que era o serviço de inteligência americano até 1949, contratou meu pai, Wid Coffin, ele fez um curso de português lá em Nova Iorque. Na verdade, era um espião de gaiato, mandaram ele para o Brasil e o “cover” (disfarce) era o trabalho com a Coca-Cola.
Na real, meu pai estava filhado ao embaixador americano e o objetivo era saber os movimentos da Alemanha por aqui. Mais tarde ele contava estas coisas rindo, pois foi tudo feito de forma amadora. Ele foi preso no Rio de Janeiro, tirando fotos de instalações militares, isso nos anos 40. Daí o embaixador americano, ou o cônsul, teve de ir lá tirar ele, mas foi por isso que ele começou com a Coca-Cola aqui.
No Rio estudei na Escola Americana, mas essa história do meu início no surf foi assim, eu tinha passado uma temporada nos Estados Unidos e fiquei estudando lá por um ano, estava no último ano do 2º Grau. Quando eu voltei para o Brasil meus pais estavam procurando uma casa para morar no Rio, isso foi por volta de julho de 1964, eu tinha 15 anos quando cheguei dos EUA. As aulas começaram por volta de setembro.
 Quando eu voltei da Califórnia eu nem sabia que o Arpoador existia. Eu não conhecia aquela parte, a praia de Ipanema, morávamos em uma casa alugada em Copacabana e meus contatos eram mais com americanos naquela época, os colegas. O que eu fazia? Saía andando pela Avenida Princesa Isabel e chegava na praia colocava a prancha na espuma e saia remando. Eu não cheguei a surfar na Califórnia pois o colégio que eu estudava era no interior. O que aconteceu é que eu vi o pessoal surfando na televisão e fiquei com vontade de pegar ondas. Pensei, eu moro em Copacabana, lá tem onda e antes de ir para os EUA eu já pegava ondas de peito, antes da época do isopor. Eu usava aquelas tabuinhas Oceania, de madeira com o bico envergado. Eu sabia que tinha ondas no Rio de Janeiro, mas eu não tinha a mínima ideia de que já existia uma turma pegando de madeirite. Em Copacabana eu fui aprendendo sozinho, fui só pegando ondas na espuma e ficava em pé. Isso foi por algumas semanas e logo em seguida as aulas começaram.
Você sabe que quando alguma coisa é para acontecer existem aquelas fatalidades. Um dos meus professores, o de Educação Física, o nome dele era Maíza e ele soube da prancha porque escutou eu falando, eu devo ter chegado lá tagarelando para todo mundo que eu tinha uma prancha de surf, que havia comprado na Califórnia...
O Maíza deve ter escutado essa conversa toda e num belo dia eu saio das aulas lá na Escola Americana, que era lá no Leblon e quando eu saio estavam me esperando o Maíza e o Arduíno. O Arduíno era uma figuraça, quando o Maíza comentou com ele, falou: ‘Pô, vamos cercar esse cara’. Eu nunca vou esquecer a cena do Arduíno de sunga, aquelas bem pequenas que ele usava, na porta da Escola Americana. Ele já tinha aquela pinta de galã e era uns 10 anos mais velho do que eu, se eu tinha uns 14, 15 ele deveria estar com 25 pra mais. Ele estava junto com o Maíza e foi se apresentando, eu não tinha a mínima ideia de quem era ele, mas veio com o papo da prancha e queria ver a prancha, porque tinha um australiano que estava aqui no Brasil... Eu achei legal. Vamos lá.
Eu era um pivetinho, ele deve ter me pegado pelo cabelo, vamos buscar a prancha. E partimos no jipe do Arduíno. Para mim, a partir dali, tudo passou a ser uma aventura. Era aquele jipe da Willys que deitava o vidro da frente. Fomos até a minha casa, pegamos a prancha, colocamos em cima e chegamos no Arpoador. Eu lembro ‘pedaços’ do que aconteceu. Ninguém ia imaginar que isso iria ficar uma coisa tão importante. Eu não tinha noção do que estava me esperando lá, estava acostumado a ir para Copacabana com a prancha e ficar no meio dos turistas. Eles olhavam e imaginavam, ‘O que é isso?’; eu também não explicava nada em português.
O fato é que chegamos no Arpoador e tinha uma galera de umas 20 pessoas já esperando. Já tinham ouvido falar. Assim que o Arduíno estaciona vem aquele monte de gente, querendo colocar a mão na prancha e não sei o que, provavelmente eu estava super acuado. A primeira coisa que me marcou é que aquela galera de surfistas mais velhos, que eram os principais daquela época, o Arduíno, o Irencyr, o Armando Serra, Badué, talvez o Walcyr, irmão do Marcelo Rabello, que era a turma da caça submarina, que passou para o surf, esses caras estavam todos na faixa dos 20 anos e eu com 15 anos era um pivetinho. Para você então, quem está com 22 para 24 anos, todos são ‘deus’. Mas foi uma recepção maravilhosa, lógico, eu era o dono da prancha. Eu tentava entender o que estava acontecendo e me aparece esse deus loiro na minha frente que era o Peter Troy - “Hi mate!”, com aquele sotaque típico, conversei em inglês com ele um pouquinho no início. No começo estranhei, todos os australianos falam um inglês estranho, mas ele me entendeu. No fim ele ficou até contente de ter alguém para falar inglês.
As ondas estavam com bom tamanho, pois lembro que estavam quebrando no pontão, mas para mim, com 15 anos e nunca havia visto ninguém pegar ondas antes, as ondas pareciam enormes. Talvez não era tudo isso, mas dá para dizer que tinha algumas ondas de 2 metros tranquilamente. Uma frase que lembro claramente é de ter pedido para ele dar um hang ten: “Peter, please do a hang ten for me to see”. Eu tinha algumas revistas de surf e as manobras eram o hang ten e o hang five. Uau man! Como faz isso? Eu não tinha a mínima ideia.
Ele pegou a prancha, foi lá fora e ele entrava naquelas ondas, mas estava um dia meio fechando, não era um dia clássico, o mar também estava meio mexido, mas ele entrava em qualquer onda e ia até o bico e a onda quebrava, BUM. A prancha ia para um lado, ele para o outro. E toda vez que a prancha vinha perto daquelas pedras, eu começava a gritar, mas a galera toda já vinha cercando a prancha e não deixava acontecer nada. Foi isso que eu lembro. O pessoal passando a mão na prancha.
Essa foi a primeira prancha desse tipo no Rio de Janeiro, se em Santos, ou em algum outro lugar, existiu outra prancha? Pode até ter tido, mas não é muito provável, pois você teria ouvido falar. Mas é possível.
Comecei a frequentar o Arpoador todos os dias saindo das aulas. Eu deixava minha prancha no apartamento do Mário Bração, ou na garagem do Geraldo (Fonseca) e eles usavam minha prancha também. O que eu mais lembro é de ficar sentado na areia, esperando aqueles caras ‘grandões’.
E O SURF NO RIO DE JANEIRO NUNCA MAIS FOI O MESMO
Isso foi em setembro de 1964 – três meses depois que Peter Troy deixou o Brasil já havia várias pranchas importadas e provavelmente Arduíno, com as informações do Peter Troy, já tinha feito uma ou duas pranchas novas”.

RUSSELL COFFIN, SURFANDO NO ARPOADOR, COM A FAMOSA PRANCHA BING 9’6” QUE EMPRESTOU PARA PETER TROY CHOCAR TODOS OS SURFISTAS BRASILEIROS

RUSSEL SURFANDO EM ITAÚNA
FOTO RECENTE DE SEU ACERVO PESSOAL

A entrevista com Russell Coffin tem mais uma hora e 10 minutos, com muitas informações, sobre sua atuação como empresário no ramo de blocos de poliuretano (Clark Foam do Brasil), bem como de seu envolvimento na criação do Parque Marinho de Fernando de Noronha. E, principalmente, de como era tudo naquele começo do desenvolvimento do surf, quando as pranchas de fibra de vidro tomaram conta do cenário.

GERAÇÕES E GERAÇÕES
Hoje o Brasil começa a experimentar um fenômeno que já está cristalizado em lugares como os EUA (Hawaii) e Austrália. Em breve estaremos com nossa terceira geração de surfistas marcando presença na “ponta” do surf mundial. Já estamos, com filhos de grandes surfistas como Ian Gouveia, Miguel Pupo e Filipe Toledo participando da elite.

LEO PAIOLI, FILHO DA IRMÃ DE ZÉ E CHICO, NA PRAIA DE MARESIAS
FOTO RETIRADA DO FACEBOOK DOS PAIOLI

Leo já tem uma filhinha que vive nesse meio, na praia e brevemente poderá ser uma membra ativa de nossa terceira geração, sob a tutela dos tios-avôs. Da mesma forma que Ian e Filipinho já estão encaminhando netinhos de campeões.
Para finalizar e não deixar de dar uma pitada de atualidade nesta postagem, destaco o quinto lugar de Mateus Herdy (sobrinho de Guilherme), filho de Alexandre Herdy, que era o mais jovem surfista no Mundial Pro Junior da WSL, agora em janeiro de 2017. Mateus fez 16 anos na véspera do evento, que agora está restrito a atletas até 18 anos, antes era Sub-21.

TIO GUILHERME HERDY, PRIMEIRO BRASILEIRO A PROTAGONIZAR UMA CAPA DA TRACKS AUSTRALIANA, NO TEMPO EM QUE AINDA ERA EM FORMATO DE TABLOIDE. FOTO DE 1997, COMPETINDO NO QUIKSILVER PRO G-LAND

MATEUS HERDY, DESTAQUE NA COBERTURA DO PORTAL SURFLINE

Todo este trabalho de pesquisa, enquanto o projeto cultural continua buscando a aprovação dos órgãos competentes, foi viabilizado pelo apoio dos parceiros presentes aqui do lado. O livro impresso será lançado em 5 VOLUMES a partir de 2017 e o blog continuará trazendo informações sobre todos os aspectos desta grande história.
Quer conhecer um pouco mais do início da fascinante história do surf no Rio de Janeiro? Três links de postagens mais antigas:

IMPORTANTE destacar que nenhum destes textos é o que sairá no livro definitivo. Este BLOG é um ensaio do projeto de pesquisa.
Tenho 100 entrevistas. Mais 100 talvez ainda seja pouco para contar esta maravilhosa história, que continua a ser escrita, com sucesso recente inusitado. Continuo a realizar meu trabalho com paixão.

Para buscar mais informações sobre o livro: WWW.HSURFBR.COM.BR


quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

MAIS TÍTULOS E A BOARD TRADER SHOW

Novos horizontes para o surf brasileiro

O bicampeonato mundial da WSL na categoria longboard para o carioca Phil Rajzman foi a melhor notícia para o surf brasileiro neste final de 2016, mas existem outros indicadores interessantes para sacudirmos a poeira e remarmos para fora desta crise.

PHIL RAJZMAN ERGUE A TAÇA PELA SEGUNDA VEZ
FOTO RETIRADA DO SITE WAVES

O primeiro título de Phil foi conquistado em 2007, na França, também em um evento único, com a presença dos principais surfistas de pranchão do planeta. Na China, na baía de Riyue, localizada na Ilha de Hainan, ao sudeste do país, já próximo do Vietnã, a qualidade do surf apresentado pelos finalistas foi espetacular, diversos hang tens foram desferidos com maestria, estilos diferenciados, cutbacks cheios de tempero e muita categoria.
O Brasil brilhou não só no masculino com Phil Rajzman, mas também no feminino com Chloé Calmon, também do Rio de Janeiro, que foi vice-campeã mundial.

IMAGEM RETIRADA DO FACEBOOK DO PAI DE CHLOÉ, MIGUEL CALMON, GRANDE EMPRESÁRIO DA SURWEAR COM A MARCA HOT STUFF E PARCEIRO DE KLAUS MITTELDORF DURANTE AS APRESENTAÇÕES DO FILME “TERRAL” NOS ANOS 70

PHIL RAJZMAN E CHLOÉ CALMON NO CENTRO, AO LADO OS OUTROS FINALISTAS DAS CATEGORIAS MASCULINO E FEMININO
PHIL PENDURANDO A BARBA EM UM HANG TEN SINISTRO
MONTAGEM RETIRADA DO FACEBOOK DO PARANAENSE JUCA DE BARROS

Na verdade, Chloé apresentou o surf mais refinado entre as mulheres e o título mundial para a jovem de 22 anos é uma questão de tempo.
As conquistas internacionais do Brasil nesta categoria datam desde 1988. No mesmo ano em que Fabio Gouveia conquistou o Mundial Amador da ISA, Rico de Souza ficou com o vice-campeonato mundial nos pranchões e logo em seguida partiu para disputar os eventos da ASP e também obteve um segundo lugar no ranking final profissional. Nos anos 1990 Picuruta Salazar despontou como o grande vencedor brasileiro na modalidade, atingindo também o segundo posto da ASP em mais de uma ocasião, Picuruta (10X campeão brasileiro), finalmente culminou com o título mundial da ISA em 2000, aqui no Brasil, em Porto de Galinhas (PE).
O longboard foi uma das categorias que estive envolvido até como competidor, durante vários anos, brevemente farei uma postagem especial com maior profundidade e destacando diversos expoentes da modalidade aqui neste blog.
Aguardem, a pesquisa para realizar meu livro pede profundidade.

Vamos continuar destacando as façanhas brasileiras deste final de 2016 e é importante citar a participação brasileira no ISA WORLD ADAPTIVE CHAMPS.

DAVIZINHO RADICAL FOI UM DOS DESTAQUES DO EVENTO REALIZADO NESTE MÊS DE DEZEMBRO EM LA JOLLA, NA CALIFÓRNIA
FOTO RECORTADA DO SITE SURFERS VILLAGE

IMAGEM RETIRADA DE PRESS RELEASE DA ISA (ASSOCIAÇÃO INTERNACIONAL DE SURF), DESTACANDO O TIME BRASILEIRO COMO CAMPEÃO DO EVENTO

O Mundial de Surf Adaptado contou com as vitórias de Fellipe Lima na categoria “Upright” e Davi Teixeira na “Assist” (em que o surfista entra com um assistente na água), fazendo com que na soma total de pontos, ajudados pelos outros componentes da equipe, fossemos sagrados os campeões.

Ainda neste mês de dezembro recebemos a notícia de que a praia da Guarda do Embaú e o estuário do Rio da Madre, em Santa Catarina, foram incluídos no projeto das “Reservas Mundiais de Surf”, isso trará recursos para a preservação desta região da mesma forma que Santa Cruz na Califórnia e Manly Beach na Austrália. Essa pérola de nossa costa merece.

IMAGEM DA GUARDA EM UM DIA CLÁSSICO. FOTO DE PLÍNIO BORDIN RETIRADA DO SITE EUROPEU SURFERS VILLAGE

No final do mês de novembro no (mais novo e reformado Pavilhão de Exposições da Imigrantes) São Paulo Expo, ocorreu The Board Trader Show, uma feira com foco na fabricação de pranchas e acessórios ligados ao surf, que objetivava a comercialização de produtos para o grande público que compareceu em peso. O evento teve diversas atrações e contou com celebridades nacionais e internacionais. Mais uma grande tacada do criativo Cláudio Martins de Andrade, fundador da revista Fluir em 1983 e que realizou as memoráveis Surf & Beach Show nos anos 1990. O mercado voltou a se reunir em um evento que tem tudo para se transformar em um sucesso ainda maior nos próximos anos.

O TRADE SHOW CONTOU COM UMA INCRÍVEL VARIEDADE DE PRODUTOS DE SHAPERS BRASILEIROS E TAMBÉM INTERNACIONAIS

O EXPERIENTE NECO CARBONE FOI O CURADOR DO EVENTO

STANDS DA MORMAII E DA SHINE SURFBOARDS, COM O CORREDOR CHEIO. DÁ PARA SENTIR O ASTRAL DA GALERA QUE AGUARDAVA UM EVENTO AGREGADOR COMO ESTE

O FOTÓGRAFO SEBASTIAN ROJAS EXPÔS ALGUMAS DE SUAS OBRAS DE ARTE EM FORMA DE FOTOGRAFIAS
DANIEL FRIEDMANN, AGACHADO ANALISANDO OS SHAPES, TEVE UMA PRANCHA DE SUA AUTORIA DE 1978 REPLICADA POR 8 DIFERENTES SHAPERS
IMAGENS RETIRADAS DO SITE WAVES

A Board Trader contou com diversas atrações e pela receptividade do público e também dos empresários que investiram em stands, tem tudo para se transformar em mais um “patrimônio” do surf brasileiro, marcando sua presença na história da evolução do esporte e como este vai se adaptando e encaixando com as tendências do futuro.
Falando em futuro, um dos destaques foi o prêmio recebido pelo renomado shaper paulista, hoje radicado em Florianópolis, Avelino Bastos, que foi premiado com a “Inovação do Ano – Best In Show”, patrocinado pela Osklen, pela construção de uma prancha Tropical Brasil, com materiais de alta tecnologia e a aplicação do OPIFEX, um incrível aparelho de telemetria. O OPIFEX é instalado no bottom da prancha e através de um aplicativo (por celular, ou num computador comum), o surfista consegue ver detalhes de seu desempenho em cada onda. O equipamento capta, armazena e transmite informações do movimento da prancha, que podem ser vistas em tempo real, ou analisadas com calma em casa, à noite, até acompanhadas de vídeo, caso as ondas tenham sido gravadas por um amigo, transformando-se em mais uma incrível ferramenta de progresso para os surfistas.

IMAGEM DE AVELINO BASTOS, CAPTURADA DO FACEBOOK DA OPIFEX

Vejam o que Avelino declarou sobre este novo artefato que vem sendo pesquisado há alguns anos: “A prancha Tropical Brasil foi premiada como “Best In Show – Inovação do Ano” pelo conjunto do que levamos à feira... Construção da prancha, materiais, design das quilhas e o OPIFEX, um aparelho de telemetria para surf, inédito no mundo em sua tecnologia. Tudo fruto de duas equipes, Tropical Brasil e Opifex, competentes e altamente dedicadas das quais tenho orgulho de fazer parte e liderar o departamento de design. Neste final de novembro a OPIFEX também está fazendo um grande movimento. Estamos sendo observados pelo Darwin Starter, uma aceleradora de projetos tecnológicos, que irá nos auxiliar a desenvolver e projetar para o mundo essa grande inovação de idealização e tecnologia puramente brasileiras.” 

A realização de um evento como THE BOARD TRADER SHOW é um exemplo de que sempre há espaço para investidas criativas no processo de evolução de qualquer atividade. Aqui, o que nos interessa é o crescimento do surf brasileiro e sua história, como fomos conseguindo o lugar de destaque que hoje temos no cenário internacional. São atitudes arrojadas como esta que fazem com que acreditemos que por maior que venham as crises, sempre teremos capacidade de seguir em frente, buscando sonhos maiores.

Para finalizar este post com um aspecto de performance, em meio ao Billabong Pipeline Masters, que está paralisado a espera de boas ondas, podemos destacar a bela participação do jovem Victor Bernardo, que foi convidado pelo patrocinador, como o único brasileiro em meio a 32 trialistas (na maioria havaianos especialistas em Pipe) e que chegou até a bateria final de 4 surfistas e por muito pouco não se classificou para o evento principal.

VICTOR BERNARDO SURFANDO EM PIPELINE
IMAGEM RECORTADA DO SITE SURFLINE

A expectativa é que, em uma das próximas temporadas, Victor que aos 19 anos teve a oportunidade de mostrar seu talento único neste 2016 MEN’S PIPE INVITATIONAL, seja mais um brasileiro que não vai deixar a tempestade – Brazilian Storm – acalmar.

Todos estes assuntos marcarão presença no livro A GRANDE HISTÓRIA DO SURF BRASILEIRO.
Para buscar mais informações: WWW.HSURFBR.COM.BR


quarta-feira, 16 de novembro de 2016

MAIS PESQUISAS NO NORDESTE

1º encontro da mídia especializada em surf

Convidado por Helder Amaral, pioneiro surfista de João Pessoa (PB) e organizador do evento, segui até Baía Formosa (RN) para participar do encontro que reuniu representantes da mídia de surf nordestina, shapers e surfistas de diversos Estados da região.

POSTER DO EVENTO
ARTE DE CIRO COSTA

Baía Formosa, o primeiro Município (ao Sul), no Estado do Rio Grande do Norte, colado com a divisa do Estado da Paraíba, ganhou notoriedade para o mundo do surf ainda no final dos anos 1980, quando Fabio Gouveia revelou que muito de sua linha “sofisticada” de surf havia sido torneada nos dois point breaks da cidade. Abaixo, minha foto preferida de Fabinho (até hoje) surfando em BF.


FABIO GOUVEIA, BAÍA FORMOSA.
REPRODUÇÃO DE FOTO DE FERNADO BRONZEADO, PUBLICADA NA REVISTA HARDCORE NA EDIÇÃO DE SEGUNDO ANIVERSÁRIO EM 1991
 VISTA AÉREA DE BF COM A ÁGUA CLARA DE VERÃO
FOTO TIRADA DE BROCHURA TURÍSTICA

A Pousada Farol foi o “quartel general” para hospedar o pessoal que veio de diversos Estados para prestigiar o evento. Os onze quartos têm vista para o mar e as conversas fluíam no deck entre uma sessão de surf e outra.

VISUAL DAS DIREITAS DO PONTAL DE BAÍA FOMOSA
FOTO: DRAGÃO
FINAL DE TARDE NO DECK DA POUSADA FAROL ECO ADVENTURE
DRAGÃO, ALEX CASAGRANDE, CIRO COSTA, MARDÔNIO PAZ E HELDER AMARAL
FOTO: MAGNO MARTINS - REVISTA BEACH SHOW

O evento contou com a presença de surfistas que vieram do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco. Quando fui convidado por Helder marquei minha passagem para João Pessoa, lá encontrei com o paulista Alex Gutenberg, que está morando na Paraíba desde o início desta década. Alex é o autor do livro A HISTÓRIA DO SURF NO BRASIL – 50 ANOS DE AVENTURA, de 1989, ele segura um exemplar encadernado na foto acima. Venho dando uma pilha para Alex colocar uma versão digitalizada de seu livro na WEB, uma vez que a obra da Editora Azul (revista FLUIR na época) está esgotada. Já reproduzi algumas páginas em postagens selecionadas deste blog.

REPRODUÇÃO DA CAPA DA OBRA DE ALEX, MINHA MAIS CONFIÁVEL E ABRANGENTE FONTE DE BIBLIOGRAFIA PARA O PROJETO DE MEU LIVRO

NA MÃO DE CIRO COSTA, TAMBÉM NA FOTO ACIMA TIRADA NA POUSADA FAROL, ESTÁ O EXEMPLAR DE 15 ANOS DA REVISTA BEACH SHOW A REVISTA CEARENSE DE MAIOR LONGEVIDADE, COM 148 PÁGINAS, DISPONÍVEL NA INTERNET

Na noite de sábado dia 15 de outubro de 2016, na Câmara Municipal de Baía Formosa, foi realizado o encontro. Na ocasião tive a oportunidade de explicar aos presentes sobre meu projeto do livro A GRANDE HISTÓRIA DO SURF BRASILEIRO e ouvir histórias interessantes envolvendo o desenvolvimento do surf no Nordeste.

FIQUEI AO LADO DE HELDER QUE ABRIU OS TRABALHOS
NAS MESAS DE DEBATES REGINALDO GALVÃO FALA SOBRE A PIONEIRA REVISTA SURFE NORDESTE, DE RECIFE. AO LADO DELE O SHAPER WENDEL CORTEZ E À SUA FRENTE, DO LADO OPOSTO, HENRIQUE OLIVEIRA, AMBOS VIERAM DE NATAL
FOTO: MARLOS FERRAZ DO SITE SURFCUPE

Uma das mais interessantes revelações foi feita por Henrique que declarou ter registros de pranchas de surf em Natal no ano de 1962. A capital do Rio Grande do Norte é uma das cidades que está em minha lista futura de viagens de pesquisa, berço de talentosos surfistas como Felipe Dantas e Sérgio Testinha, estrelas dos primeiros circuitos da Abrasp. Porém, seguindo até as raízes do surf em Natal, vale pesquisar mais afundo, pois se voltarmos a visão para o surf brasileiro em 1962 - no Rio de Janeiro os surfistas estavam usando as pranchas de madeirite, inventadas por Irencyr Beltrão. Em São Paulo havia as “caixas de fósforos” e outros protótipos alquimistas. Buscarei estes registros com Henrique e mais informações da gênese do surf em Natal e nas outras capitais do Nordeste.

CARTAZ DE DIVULGAÇÃO DO EVENTO

Meu trabalho de pesquisa prevê viagens às principais capitais litorâneas, buscando informações sobre as raízes do surf em cada um destes Estados.

NA CÂMARA DE BAÍA FORMOSA, A PARTIR DA ESQUERDA: HENRIQUE OLIVEIRA, HELDER AMARAL, REGI GALVÃO, MARLOS FERRAZ, DRAGÃO E WENDEL
FOTO: GILBERTO PHILIPINI (SURFCUPE)

Compondo a mesa lateral estavam também Viola Tavares, da marca Detonação e o jovem vereador de Baía Formosa, Toninho Madeiro. Eles têm apoiado o desenvolvimento do surf no Município.

TONINHO MADEIRO EM MEIO A GAROTADA. EVENTO ORGANIZADO POR UM DOS GRANDES TALENTOS DO RIO GRANDE DO NORTE, O SURFISTA ALAN JHONES

UM DOS VEÍCULOS DO NORDESTE QUE ESTEVE PRESENTE FOI O SITE DE RECIFE - SURFCUPE, DE MARLOS FERRAZ, ENTRE HELDER E DRAGÃO
FOTO: GILBERTO PHILIPINI
TAMBÉM DE RECIFE, PINO O SURFISTA ANÃO DE ALTA PERFORMANCE, PRESTIGIOU O EVENTO. ELE FOI CAPA DE UMA DAS EDIÇÕES RECENTES DA REVISTA SURFE NORDESTE. NA FOTO DO FACEBOOK DA SURFE NORDESTE ELE APARECE AO LADO DE REGINALDO GALVÃO

Regi Galvão é um dos lendários surfistas de Recife, hoje com 58 anos ele foi o fundador da primeira revista de surf do Nordeste. No ano de 1983, logo após o lançamento da Fluir em São Paulo e um pouco antes da primeira revista Inside ser lançada em Santa Catarina, ele lançou a SURFE NORDESTE. Na época saíram apenas 3 edições e a revista parou. Recentemente foram lançadas mais 3 novas edições. Tenho uma boa entrevista com Regi, que sairá neste blog futuramente.

FOTO DE REGI GALVÃO DE SEU IRMÃO SURFANDO AINDA NO ANO DE 1968 EM BOA VIAGEM. HOJE ESSE TRECHO DA PRAIA ESTÁ INTERDITADO DEVIDO AOS ATAQUES DE TUBARÕES

NA CÂMARA MUNICIPAL DE BF, REGI GALVÃO SEGURANDO A EDIÇÃO DA SURFE NORDESTE QUE TRAZ O TÍTULO DE MEDINA. AO LADO DELE A TRINCA DA REVISTA BEACH SHOW DE FORTALEZA (CE), MAGNO MARTINS À ESQUERDA, MARDÔNIO PAZ FILHO E CIRO COSTA
FOTO: DRAGÃO

MARDÔNIO FILHO SURFANDO EM PADANG PADANG – BALI
IMAGEM RETIRADA DO SITE DA REVISTA BEACH SHOW

Além do pessoal da imprensa alguns shapers do Nordeste também estavam em Baía Formosa neste final de semana de outubro de 2016.

WENDEL CORTEZ, DE NATAL. NOS ANOS 1970 E 1980 SE JOGOU PARA O RIO DE JANEIRO E TRABALHOU EM DIVERSAS FÁBRICAS DE LÁ COMO BACK SHAPER. HOJE FAZ AS PRANCHAS TERRAL NO RIO GRANDE DO NORTE
FOTO: DRAGÃO

RUCLÉCIO LUCENA, DAS INTRUST SURFBOARDS, TRABALHA EM RECIFE E CRIOU UM SISTEMA DE RABETAS INTERCAMBIÁVEIS MUITO INTERESSANTE
FOTO RETIRADA DE SEU FACEBOOK

Durante os dias que passei em Baía Formosa pude absorver muitas informações a respeito do surf nordestino e aos poucos estas histórias estarão aqui neste blog e também farão parte do livro A GRANDE HISTÓRIA DO SURF BRASILEIRO, agora previsto para ser lançando a partir de 2017 em 5 VOLUMES. O trabalho que estou fazendo é de ir compilando e organizando o máximo de informações que estiverem ao meu alcance, com entrevistas (gravações), com as publicações disponíveis e acervos fotográficos.

LONGARINA, DRAGÃO E CASAGRANDE EM BAÍA FORMOSA
FOTO: INSTAGRAM DA REVISTA BEACH SHOW

HELDER AMARAL SURFANDO EM BAÍA FORMOSA
FOTO RETIRADA DE SEU FACEBOOK

Helder, mais conhecido como Longarina é um dos surfistas pioneiros da Paraíba. Helder Amaral (29/11/1959) nasceu em Areia no interior do Estado, cento e poucos quilômetros a oeste de João Pessoa. Começou a surfar, no início dos anos 1970, com uma prancha 6’10”, by Tony (do Rio de Janeiro) comprada de um amigo em João Pessoa.

Do norte de Recife \ Olinda até João Pessoa uma barreira de arrecifes praticamente bloqueia as ondulações. Ondas boas começam a aparecer de João Pessoa para o norte em direção à BF, já no Estado do Rio Grande do Norte. Helder desbravou as ondas desta região, Barra de Camaratuba, Baía da Traição, praia das Cardosas (na qual foi realizado o primeiro campeonato de surf na Paraíba), participou da organização dos primeiros campeonatos em seu Estado, fabricou pranchas de surf até 1992 e acabou mudando para morar em Baía Formosa a partir de 1996. Hoje Helder vive com sua esposa Virgínia entre João Pessoa e Baía Formosa, onde tem a Pousada.

HELDER SURFANDO NO PERU E NO BRASIL
FOTO RECORTADA DE SEU FACEBOOK

VISUAL DA VARANDA DE UM DOS QUARTOS DA POUSADA FAROL
BAÍA FORMOSA. FOTO: DRAGÃO

Aguardem mais informações do surf na Paraíba (e em todo o Nordeste) em breve neste blog. O Município de Baía Formosa passou a ficar conhecido depois que Fabinho Gouveia afirmou que este foi seu melhor campo de treinamentos em seu início no surf. Hoje a cidade tem um dos 34 atletas do WCT, Ítalo Ferreira e não vai parar de injetar novos talentos no cenário nacional e mundial. Helder destaca o surfista Jonatha Santos como uma das promessas.
Jonatha dos Santos Silva, nascido em 27/6/1999 em Pontal do Peba, em Alagoas, é um dos novos talentos que mora em BF. O pai pescador trouxe Jonatha com cinco anos para morar em Baía Formosa, pois achou o lugar perfeito. Todos os irmãos e irmãs pegam ondas. Jonatha foi campeão estadual iniciante e mirim. Com as dicas de surfistas como Alan Jhones, Chupeta e Chicó, grandes locais de BF, Jonatha é mais um surfista que tem tudo para brilhar em uma carreira profissional.

RETRATO NA POUSADA FAROL
FOTO: DRAGÃO

IMAGEM RETIRADA DE SEU FACEBOOK

O surf nordestino ainda tem muitas histórias e personalidades que marcarão presença neste blog, continuem acompanhando fragmentos da história. De BF voltei para João Pessoa e de lá para meu escritório de trabalho na cidade de São Paulo.


AEROPORTO DE JOÃO PESSOA
FOTO: DRAGÃO

Ao voltar, ainda com o espírito nordestino na cabeça, uma das boas notícias que encontro é a da bela performance da cearense Silvana Lima, que com a vitória na última etapa do WQS da WSL, em Sidney na Austrália, além de garantir o seu regresso à elite feminina em 2017, ficou com a primeira colocação entre as meninas do WQS na temporada 2016.
SILVANA LIMA EM CRONULLA BEACH
A PRAIA ONDE OCCY ERA LOCAL

PÓDIO DA ÚLTIMA ETAPA DO WQS FEMININO
RECORTES DO SITE DA WSL

Silvana, além de Andrea Lopes, Tita Tavares e Jacqueline Silva terão destaque como as grandes competidoras brasileiras no circuito mundial. Agora é o momento de trabalhar para que novos talentos femininos reforcem nosso time na WSL. Mas isso é um assunto para novas postagens deste blog e também para marcar presença no livro.

Para buscar mais informações: WWW.HSURFBR.COM.BR