domingo, 26 de março de 2017

MARACA, PARTE 1

Legend de primeira grandeza

Rossini Maranhão Filho é um dos mais importantes surfistas que o Brasil já teve. Ele nos deixou em novembro de 2016 e durante todos os ANOS 2000 já era venerado como um de nossos grandes “tribal elders” - anciões da tribo. Vamos conhecer um pouco mais profundamente a sua história.

NA CASA DE MARACA, ONDE ESTIVE EM AGOSTO DE 2015, APROVEITEI A OPORTUNIDADE PARA CAPTURAR, COM MEU CELULAR, UM POSTER COLOCADO NA PAREDE DE SUA SALA EM SAQUAREMA
MOMENTOS DE AÇÃO DE SUA CARREIRA
FOTO: DRAGÃO

Vocês já conhecem meu estilo neste blog, que anda em paralelo com o trabalho de pesquisa para a construção do livro A GRANDE HISTÓRIA DO SURF BRASILEIRO. Finalmente consegui a aprovação com a Secretaria da Cultura de SP para lançar (o primeiro de 5 VOLUMES), a velocidade dependerá da captação dos recursos aprovados. A obra completa ficará disponível ao longo de 2017, 2018 e 2019.
Este blog vai estar trazendo e deixando para consulta dos interessados, muito mais informações do que no livro. Pela densidade e profundidade aqui apresentadas, estas histórias escapam do escopo mais informativo e abrangente do livro impresso e a limitação total de páginas (660 – 132 POR VOLUME) que estou prevendo e que estarão muito mais ilustradas do que carregadas de texto.
Neste contexto, aproveito esta oportunidade de reverência ao mestre Maraca, supremo contador de histórias, para deixar praticamente a íntegra, com pouquíssimas edições, do que gravei com ele mesmo contando a sua história.

ROSSINI MARANHÃO FILHO, NO JARDIM DA CASA DE JACQUES NERY EM SAQUAREMA, LOCAL EM QUE FOI COLHIDO ESTE DEPOIMENTO
FOTO: JACQUES NERY

Estas sessões de gravação ocorreram em agosto de 2015, aqui colocarei o início da história de Maraca, até ele voltar do Hawaii no meio de 1970. Seguindo os passos de Penho, ele foi o segundo brasileiro a passar uma temporada surfando no Hawaii e chegou para a Era do Píer, mas isto estará na PARTE 2 desta homenagem (breve aqui neste blog).
Por hora deliciem-se com o início de sua história no surf:

“Meu nome completo é Rossini Maranhão Filho, nasci em Belém do Pará em 3 de março 1950. Meu pai era diretor do setor aduaneiro e minha mãe trabalhava no Ministério da Fazenda. Meu pai trabalhava muito nos limites do Brasil, nas fronteiras. Mudamos bastante, fomos morar em São Paulo, voltamos para o Rio. Eu sempre continuei com o surf.
Com quatro anos de idade minha família veio do RS (Porto Alegre) para o Rio de Janeiro, em 1954 comecei a frequentar Copacabana, aos 6 anos já pegava jacaré de peito e era íntimo das ondas de Copacabana e das valas. Em Copacabana, antes de fazerem o aterro, quebravam ondas enormes lá de fora, era como se fosse uma Macumba, só que tinha uns bancos de areia e as ondas vinham abrindo grandes até a beira com quebra-cocos enormes. O Posto 5 ficava perfeito, com vento sudoeste o Baixio quebrava perfeito. As ondas quebravam desde o Leme, até o Posto 6 lá de fora, eram maravilhosas.
Eu adorava o contato com o mar. Comecei pegando ondas de jacaré de peito, com pés de pato. Depois tinha uma tabuinha, chamada Oceania, a gente ia deitado. Pegávamos ondas enormes de até quase 3 metros e vínhamos deitados com aquelas tabuinhas, no corte, até a vala. Quando as ondas abriam ficava muito bom em Copacabana e desde os 6 anos eu tinha contato com o mar, que eu adorava, morava ali em Copacabana e era muito bom aquilo (1956). Pegávamos ali no Posto 5, na Miguel Lemos, Bolívar... E o Posto 6 quando o mar ficava grande.

PRANCHA SIMILAR A UM MODELO OCEANIA

Em 1963 teve uma ressaca gigante e nessa época todos nós já pegávamos de madeirite, nós havíamos evoluído da prancha Oceania para a madeirite, pranchas da Ilha do Governador, de compensado naval, que pesavam uns 15 quilos. Tinha também as pranchas da R. Francisco Otaviano. Desde de 1956 eu não saía de dentro d’água. Depois das madeirites vieram as pranchas de fibra. Logo começaram a chegar as pranchas importadas.
Nesta ressaca de 1963 que eu falei, o Posto 6 ficou “olímpico” durante uma semana, esta ressaca jogou muita areia no Posto 6 e ali, quase nunca quebrava, só uma ondinha bem perto da pedra quando dava o vento sudoeste. Ela batia assim na pedra e vinha, mas nunca tinha muita onda vindo lá de fora. Quando aconteceu esta ressaca em 63 elas vinham lá da ponta da pedra, quase na altura do canhão do Forte de Copacabana e parecia que era um point break de direitas. Acumulou uma quantidade de areia jamais vista no Posto 6. Foi uma coisa fora de série, vinham ondas sem parar, lá de fora. E existiam poucas pranchas, não tinha crowd era a mesma galera de sempre. O crowd maior era o pessoal com Planondas e tabuinhas Oceania. Durante seis meses ficou quebrando olímpico ali, era um espetáculo, você vinha lá de fora em ondas muito especiais para longboard. Ela não fechava, era tipo Waikiki e você surfava em um longo caminho até a beira, formou um Point em Copacabana, depois foi saindo a areia, assoreando, mas mesmo assim ás vezes ainda dá umas ondas lá até hoje. Se der uma ressaca de leste e jogar areia ali no canto, é um bom point para quando entra o vento sudoeste. Hoje é point dos Stand Up, um point break.
Minha primeira prancha de madeirite foi com 12 para 13 anos, logo depois vieram as pranchas de fibra, depois de dois anos, eu logo tive uma. Aí começou o surf constantemente de longboard, fazíamos aqueles nose rides, que era a manobra máxima e o Arpoador era a praia local, era muito legal a gente surfar. Basicamente a gente surfava no Arpoador em dias de leste e quando dava o vento sudoeste íamos para o Posto 6, ou o Posto 5. Para quem gostava de pegar onda como nós, não tinha nenhum dia sem ondas. Começamos a pegar vários tipos de mares e isso, associado à atividade física, que era importante. Eu fui nadador do Clube Fluminense, sempre tive um relacionamento com a água, muito grande. Surfar para mim foi a maior descoberta do mundo e eu estou nessa até hoje.
Minha segunda prancha foi uma Royal Hawaiian, eu fui morar nos Estados Unidos como intercâmbio cultural e quando eu voltei eu trouxe essa prancha, era uma coisa pré-moldada, tipo uma pop up, mas ela era muito boa, esta foi a minha primeira prancha de fibra, uma 9’4”, depois eu vendi esta prancha e consegui uma 9’2” - Con Surfboards, wing nose, ela era branca e tinha uma lista vermelha no bico e foi com esta prancha que começou aquele show do David Nuuhiwa de andar até o bico, o longoboard virou um show de nose rides, depois que passou o filme Endless Summer (1967). Então aquelas manobras, com estas pranchas longboards melhores, foi o ápice do longboard. Até o Penho chegar com aquela mini model e a gente decolar e começar a fazer pranchas aqui.
Minha terceira prancha foi uma Greek 7’7”, que um marinheiro americano chegou aqui com ela, logo depois que o Penho chegou. Em 1968 esse marinheiro trouxe uma mini model, que eu comprei por US$ 250,00. Usei muito essa 7’7” que era uma pin tail muito boa. Então como não havia mini models, só tinha a do Penho, a gente recortava os pranchões e achava que fazíamos mini models, mas não eram mini models, era uma coisa meio diferente.
Mas durante todo este período a gente nunca deixou de pegar ondas por um motivo ‘Ah, não tem prancha’, ‘Ah, não tem parafina’, a gente se virava, aparecia prancha, aparecia parafina e aparecia o tempo também para surfar e ficar dentro d’água. E era isso que a gente queria, estar dentro d’água com uma prancha boa...”

Maraca começa a fazer outras divagações que estarão na Parte 2.

A PRIMEIRA VINDA A SAQUAREMA
Rossini Maranhão, mais uma vez com a palavra:

“Naquela época era diferente, olha só, essa evolução toda que eu falei, das pranchas mudando, aparecendo parafina, antes a gente não tinha nada...
A primeira vinda para Saquarema ainda foi na época dos longboards, 1964, 65, 66 nós surfávamos na Barrinha, que sempre foi um point break maravilhoso de direitas e ali sempre foi muito perfeito. Depois nos dias maiores fomos até Itaúna e o mar estava de leste, tinha tubos para a direita maravilhosos, impecáveis. Começamos a perceber que a direita de Itaúna era constante, boa, regular e fácil de entrar de longboard, porque você podia circundar, pegar a onda, sair e voltar logo e era uma onda emocionante, porque ela tinha um poder, uma força muito boa. Percebemos que quando subia o mar dava as esquerdas e nos dias menores as direitas, embora com água gelada e sem roupa, nós entrávamos e ficávamos menos tempo, mas ficávamos.
Uma das primeiras viagens que fiz estava com Tito Rosemberg, ele que me colocou o apelido de Maraca.”

IMAGEM RETIRADA DO ÁLBUM DE FOTOS DO TITO ROSEMBERG
PUBLICADO PELA MARCA TOTEM DE FRED D’OREY

APELIDO
“Todo mundo me chamava de Maranhão, Maranhão... Alguns me chamavam de Rossini, mas na época eu pulava tanto na prancha que o Tito chegou e falou,’Pô tu parece uma Maraca pulando.’ E aí pegou o Maraca, que foi uma coisa fortíssima. E o Maraca se tornou um bom atleta, um cara que se apresentava com um surf bacana de ver e todo mundo ficava amarradão. Mas amarradão mesmo.

E nós viemos explorando a costa toda no jipe dele, ele tem até umas fotos de vários lugares. Quando nós passamos aqui o mar estava gigante em Saquarema, fomos até Massambaba e estava maior ainda e nós ainda fomos até Búzios e Geribá, pegamos ondas em Geribá (tem uma foto da gente lá em Geribá), voltamos para cá – Saquarema, no dia seguinte e o mar estava enorme, caímos com umas ondas gigantescas. Aí a gente começou a surfar ondas grandes aqui constantemente.”

PERU E HAWAII
“Antes de eu ir para o Hawaii vendi minha prancha Greek (terceira prancha). Eu levei ela para o Peru para participar do campeonato internacional em 1968, foi a minha primeira viagem internacional, o campeonato era patrocinado pela Aero Peru, isso foi em fevereiro de 1968. Participei do campeonato em Punta Rocas, cheguei lá na hora da minha bateria, não me dei bem, mas surfei com a minha Greek. Eu fiquei em terceiro lugar na bateria, era a primeira vez que eu surfava em Punta Rocas. Na bateria não lembro quem estava, mas era só gente famosa da época. No campeonato estavam Barry Kanaiaupuni, Ben Aipa, Fred Hemmings, Gordo e Flaco Barreda, Chino Malpartida, Fernando “Pocho” Awapara, Butch Van Artsdalen, Eddie e Clyde Aikau, Mike Purpus, era só gente muito boa.
Nessa viagem fiquei mais de dois meses e meio, peguei todas as ondas dali, fui para Chicama e ainda desci uma onda em Pico Alto com essa Greek, 7’7”. Neguinho falou ‘Pô cara, não acredito’ e todo mundo ficou chocado. Virei uma vaca lá, em Pico Alto gigante, que eu pensei que iria morrer. Eu consegui dropar uma onda de 23 a 25 pés, de remar e entrar nela, mas aconteceu que no final do drop veio um calombo e quando a prancha passou em cima eu voei longe e a onda se mexe muito rápido e pra frente em Pico Alto, então eu fui escorregando na face da onda, uns 6 a 8, 10 metros na face até tomar não sei quantas toneladas de água em cima da minha cabeça e é um caldo muito forte, eu não conseguia subir e quando você sobe a camada de espuma é muito alta, você está na superfície e mesmo assim fica aquela espuma. Eu estava sem cordinha e levei quase uma hora, ou 45 minutos, para sair do mar. Tem até uma foto que saiu em uma revista, não lembro se tinha o drop, ou eu caindo, mas tinha uma citação sobre o fato: ‘Sopresamente el brasileño Maraca entrou em Pico Alto’. O Clyde Aikau olhava para mim e falava ‘puta que pariu!’ E eu ainda peguei uma onda antes de virar essa vaca toda, porque veio uma de 26 pés e tive de sair remando e foi nessa rebarba que eu tomei uma na cabeça. Porque eu tive de entrar na onda da frente de qualquer jeito, para não tomar a de trás que era maior ainda, aí eu entrei na da frente que tinha uns 20 e poucos, mas acabei tomando a série toda.
Mas eu dei um drop que eu nunca mais vou me esquecer. Só que eu acabei saindo amarelo de dentro d’água, com medo. Minha prancha foi parar em El Silêncio, o pessoal todo me esperava na beira da água. Você tem que nadar aquilo tudo, lá de fora, ainda com aquelas maláguas te queimando, depois encarar aquele inside de 3 metros de altura. Aquela arrebentação tipo um Macumbão, sair e pegar um jacaré de peito. Eu fui parar, sei lá, em Señoritas onde eu consegui sair. Você tem que ter um preparo muito bom. Um pulmão de primeira para aguentar. Graças a Deus, como eu era formado em Copacabana e era nadador, o meu conceito sempre foi de ser atleta. Atleta que cuidava da saúde em benefício do esporte, para poder ter uma performance legal. Eu sempre fui como atleta, amarrado em fazer uma super-ultra performance legal, todo mundo sabe disso.”
...

MARACA - TEMPORADA HAWAII 1969 \ 1970
“Eu cheguei lá em setembro e saí de lá já era quase março, em fevereiro.
A viagem para o Hawaii foi o seguinte: Eu estava no segundo ano de administração na UEG – Universidade Estadual da Guanabara e tranquei minha matrícula em junho de 1969. Na época forte do AI-5, muito perigoso, na minha faculdade tiveram tiroteios, ataques e as pessoas sumiam. E como os jornais e as televisões falavam mal dos surfistas naquela época, que não eram o tipo de pessoa ideal, que eram vagabundos e ‘otras cositas más’, os surfistas eram muito discriminados, eram pessoas que não eram bem vistas pela sociedade, porque gostávamos de deslizar sobre uma onda e isso era considerado anormal. Então eu falei, pô, vou dar um tempo nos EUA, fui para a Califórnia, para Los Angeles com o Mário Papinha (Barcellos hoje mora em SP), passei antes no Peru e estava muito frio para surfar, em julho o tempo não é muito bom lá e eu fui para a Califa.
Bom, eu estava no meio do segundo ano de administração e fui para lá e fiquei na Califa, morando em Malibu Canyon, fui para o México. No começo eu pegava ondas em Venice, Huntington, andamos por ali, fiquei um mês de férias. Eu e o Mário ficamos amigos de uns brotos assim maravilhosos “California Girls”, e a gente ia curtir a Disneylandia todos os dias, não era só para crianças, tinha shows, casas de festa e era o ponto de encontro das gatas americanas. As mais maneiras estavam ali, a frequência não era de crianças e sim de gatinhas.
Fiquei trabalhando lá até setembro e a dona do lugar onde eu trabalhava falou, eu devo para você uns US$ 600, então eu vou te acertar. Eu liguei para o aeroporto e perguntei quanto era uma passagem para o Hawaii, era uns 150 dólares. Falei: ‘Reserva aí para Rossini Maranhão Filho, passaporte número tal, tô embarcando agora’, peguei um taxi e fui para o Hawaii naquele dia.
O Mário desistiu, ele voltou para o Rio, a mãe dele não deixou ele ir para o Hawaii. Cheguei lá no Hawaii não tinha nenhum brasileiro, era 5 de setembro de 1969, o Penho já tinha voltado fazia um ano e meio em 1968, cheguei lá ninguém sabia onde era o Brasil, quem era o Penho. Eu fiquei lá residente com os peruanos. Eles eram um exército de surf. Fiquei com Chino Malpartida, Gordo Barreda, Ivo Hanza, Flaco Barreda, Pocho Awapara, só o pessoal de ondas grandes. Eles tinham pranchas 9’4”, 9’8”... Perguntavam, você vai fazer que prancha? Uma 9’8”. Ahhh, meu Deus do céu. E ficamos ali em Sunset e todo dia morando ali e eu já tinha conhecido o Clyde e o Eddie Aikau no Peru.
No começo do Hawaii eu cheguei lá com uma 7 pés e fui querer cair em Sunset e acabei perdendo a prancha na correnteza. Aí fui mandar fazer uma 7’10” e depois surfei com uma prancha do Charlie Galanto, que me shapeou de graça. O Ben Aipa me fez uma 7’7”. Depois o Charlie Galanto me fez uma 7’10”. Lá eu não trabalhei com pranchas, trabalhei um pouco como jardineiro. Pintou um serviço, me ofereceram e como eu gosto de jardinagem, quando eu não estava surfando eu cuidava do parque lá em Waimea Falls, porque uma menina que eu estava saindo era de lá, era a diretora de paisagismo do Waimea Falls e ela viu que eu gostava de plantas e como eu aqui em Saquarema também planto papaya, planto coqueiros e sei da vida das plantas, ela me convidou. Eu ganhava 11 dólares a hora para cuidar do jardim do Waimea Falls Park. Trabalhava toda a semana em Waimea Falls, ganhava uma grana lá.
Naquela época não tinha dinheiro de papai, de mamãe, nem patrocínio não. Era salve-se quem puder. Eu fiquei 6 meses até março de 1970. Nos primeiros dias, até outubro eu estava ainda meio cru naquelas 'mórras'. Muita ondulação de norte, swells meio traiçoeiros, você está lá dentro e vem uma onda lá na casa da cacilda. Aí fui acostumando, pegando ondas de 12 pés, 15 pés, aí teve um dia de 18 pés e eu acabei caindo em Waimea, peguei duas a três ondas boas.
Eu pegava bons tubos, em Sunset eu dei cada batida de backside, inacreditável. Eu acertei uma lá, em um dia de 12 pés, que foi bem frontal e que quando eu reentrei eu falei eu vou cair. Mas eu caí vertiginosamente, em uma ‘angulagem’ 90 graus, prefeita. Virei e a placa caiu em cima de mim, mas eu completei a manobra, virando e cortando assim, igual navalha. Uma Ferrari na curva, largando borracha.
Joey Cabell me falava, “If you make a backside snap like that, you’ll gonna be world champion”, e eu me inspirava nas batidas do BK que eram batidas de frente. E eu comecei a subir reto e pegar velocidade que nem o Jackie Baxter, o estilo do Billy Hamilton e misturei com a agressividade do Ben Aipa, mais tudo de bom do Jock Sutherland, que era um cara cool. Então, meu estilo foi baseado nesse pessoal do surf, que não era o pessoal do longboard não, era o pessoal que surfava bem em ondas grandes. Eles faziam um surf hot dog. A gente botava para dentro em canudos de 12 pés. O Jackie Baxter e outras pessoas viram eu lá andando dentro de canudos de 12 pés. De backside, relax, lá dentro e neguinho falava, ‘Pô, o tal do Brazila, heim!!!’
Finalmente eu comecei a surfar do jeito que eu queria. Eu tinha entrado em forma, acabei me acostumando com as ondas do Hawaii. Você remando em Sunset, você rema em qualquer lugar, o resto do mundo parece brincadeira. Se você remar em Sunset, folgado, você rema em qualquer lugar do mundo muito bem. Até em Waimea, Pico Alto, Todos Santos, qualquer lugar. Baixio, Saquarema...
Sunset para mim era a onda preferida, porque eu morava ali em Sunset Point. Ali também não quebrava pranchas como Pipeline, e eu não estava com muita grana, então eu consegui ficar com uma de minhas pranchas sem quebrar durante toda uma temporada, embora eu enfrentasse situações para lá de esdrúxulas.
Eu tinha essa 7’11 e uma 7’6”. Caí em Waimea de 7’11”, fui pra lá com o Ivo Hanza e ele falou, vamos lá Brazila, que eu te dou uma força, nesse primeiro dia que eu surfei Waimea dropei seis ondas, um dia com 20 a 22 pés. De manhã estava o Corky Carroll que quebrou três pranchas. O terral estava muito forte e quase ninguém conseguia entrar nas ondas e de tarde parou o vento, ficou mais mellow. Ficou o Waimea mais perfeito do mundo, as ondas vindo no mesmo lugar, não tinha uma onda maior do que a outra, mas estava com 20 para 22 pés.
Depois deu aquele swell famoso, gigante do Greg Noll, de 1969 eu estava lá. Nós não fomos surfar em lugar nenhum, subimos o Sunset Hill para fugir do maremoto. Pare a gravação que eu te conto a história toda.”
NÃO CONTOU

Com Maraca fiz quatro sessões de gravação em agosto de 2015, algumas delas ao lado de Penho e Otávio Pacheco. Jacques Nery tem parte disso registrado em vídeo.
Já coloquei neste blog a imagem abaixo. Isso é uma página dupla da revista Fluir de outubro 2015, a edição de 32 anos, o último aniversário da saudosa publicação. A matéria, concebida pelo editor chefe na ocasião, Adrian Kojin, tinha 14 páginas e era dedicada a Penho (Carlos Eduardo Siqueira Soares), o primeiro brasileiro a ir surfar no Hawaii e o fecho da matéria era esta página dupla.

REPRODUÇÃO DA FLUIR #360
BAIXEM ESTA IMAGEM E AMPLIEM EM SEU COMPUTADOR QUE DARÁ PARA LER

Este é apenas mais um trecho das entrevistas que fiz com Maraca. Aguardem a Parte 2, com muito mais informações e fotos, em breve aqui.
Para fechar, as últimas explicações de Rossini sobre esta viagem e seu regresso ao Brasil, pronto para atacar as ondas do Píer de Ipanema.
Maraca: “Fui pedir o visto para morar no Hawaii, o cara da imigração do FBI falou que dava se eu ficasse lutando dois anos no Vietnam. Preferi voltar para o Brasil. Na volta parei na Califórnia, fiquei com o Tito um tempão lá, surfando Sunset Cliffs. Depois eu fui para o México. Aí eu fui para o Peru e voltei para o Brasil no meio de 1970. No Peru cheguei no dia do evento Internacional de Tablas Havaianas em 1970, cheguei atropelando Punta Rocas. Lá tem um hábito que quando você via uma onda boa, os caras jogavam o chapéu. O Rico viu a minha direita. Porra! Chapéu voou pra caramba lá.”

Maraca tinha um jeito único e colorido de contar as histórias. Com certeza minha ideia era voltar a Saquarema (o que farei este ano ainda – para montar o capítulo PICOS DE SURF sobre a região), entregar um exemplar desta Fluir, em mãos, para ele e Penho. E buscar mais destas maravilhosas histórias do Maraca. Isso ficou na vontade.
Mas o legado de Maraca é muito poderoso. Na Parte 2 desta homenagem, que será ainda maior, muitas outras passagens e imagens ficarão “posterizadas” aqui em meu blog.

IMAGEM RECORTADA DO SITE DA REVISTA SURFAR EM NOVEMBRO DE 2016. DIA TRISTE PARA A MEMÓRIA DO SURF BRASILEIRO
FOTO DE FÁBIO MINDUIM NO ARPOADOR

As performances de Maraca, quando ele voltou ao Brasil, IMAGINEM?! Fresco de uma temporada havaiana, foram antológicas. Chegou junto em campeonatos de Ubatuba (vice), Píer e Saquarema. Arrebentou e fez escola nas ondas brasileiras.

Se eu pudesse resumir o surf de meu amigo Maraca em uma única palavra, esta seria DESPOJADO. Este é apenas um aperitivo desta homenagem que pretendo prestar ao grande Rossini Maranhão Filho.

Para finalizar, mais uma imagem do ídolo. Surfando no Arpoador, recém-chegado do Hawaii.

ESTA FOTO ESTÁ NO POSTER DA CASA DELE 
E AQUI PEGUEI DA INTERNET
AINDA PRECISO PESQUISAR QUAL O FOTÓGRAFO, ENCONTRAR ESTE ORIGINAL E É UMA IMAGEM QUE GOSTARIA DE PUBLICAR, EM ALTA DEFINIÇÃO, EM MEU LIVRO

Para este projeto do livro A GRANDE HISTÓRIA DO SURF BRASILEIRO já entrevistei ao redor de uma centena de surfistas, outras tantas ainda agendarei. Na medida em que o projeto for evoluindo, considero este blog tão valioso quanto o próprio livro e darei meu melhor para trazer um alto padrão de qualidade e fidedignidade a ambos.

Para buscar mais informações: WWW.HSURFBR.COM.BR


domingo, 5 de março de 2017

DO PASSADO AO PRESENTE

A história antiga e a escrita em tempo real
As postagens deste blog voam entre incríveis relatos do surf embrionário no Brasil para momentos marcantes que vivemos na atualidade: a fase mais heroica competitivamente do surf brasileiro. E 2017 começa bem.

JESSÉ MENDES DISPAROU NA PONTA DO RANKING DO WQS DA WSL, APÓS SUA VITÓRIA NO AUSTRALIAN OPEN OF SURFING, NA EMBLEMÁTICA PRAIA DE MANLY BEACH, PALCO DO PRIMEIRO MUNDIAL DE SURF, AINDA AMADOR, EM 1964 E VENCIDO PELO AUSTRALIANO MIDGET FARRELLY
IMAGEM RECORTADA DO SITE SURFING NSW

A “tempestade brasileira”, tomou força novamente neste início de 2017 e as expectativas parecem boas para o início do WCT a partir de 14 de março. O surfista do Guarujá, Jessé Mendes, com um segundo lugar em Newcastle e a vitória em Sydney toma uma liderança do ranking ainda mais forte que a do italiano Leonardo Fioravanti em 2016, que fez dois vices na Austrália. Jessé Mendes também acabou bem no final de 2016 e deverá ter a oportunidade de participar de algumas etapas do WCT durante a atual temporada.

PÓDIO, COM JESSÉ E JULIAN WILSON E TODAS AS NOTAS DA FINAL AO LADO
IMAGEM RECORTADA DA TRANSMISSÃO DO AUSTRALIAN OPEN

A bateria decisiva foi uma das mais empolgantes do evento. Com a prioridade e faltando menos de 10 minutos para o encerramento, Jessé liberou uma onda para o australiano (principal cabeça de chave do evento) e Julian não perdoou arrancando um 9,33 da pequena esquerda. Erro tático! Os campeonatos de surf são ancorados em diversos ingredientes, o mais óbvio é o talento natural dos atletas. O preparo físico, a estratégia, posicionamento no mar, escolha de ondas e a sorte (por vezes divina), entre outras peculiaridades, também compõem o resultado final, via de regra ditado por um julgamento correto.
Não muito tempo após a onda surfada por Julian, já com sua nota anunciada, veio a onda que Jessé queria. E ele não deixou por menos. Virou a bateria a seis minutos do final, deixando Wilson precisando de uma nota 8,81 e esta onda não veio. Sangue frio, tarimba, não tremeu na base na hora decisiva.

RECORTE DA TRANSMISSÃO AO VIVO DA ONDA VENCEDORA DE JESSÉ

 JESSÉ MENDES E PAULO KID TÊM UM RELACIONAMENTO DE LONGA DATA. KID JÁ FOI UM DOS GRANDES COMPETIRES BRASILEIROS, VENCEDOR DE ETAPA DA ABRASP E QUE DEPOIS DE ABANDONAR A CARREIRA DE ATLETA PASSOU A TREINAR DIVERSOS SURFISTAS PROMISSORES. IMAGEM RETIRADA DO SITE DA REVISTA SURFAR

OUTRO GRANDE TÉCNICO E EX-SURFISTA PROFISSIONAL É LENDARO DORA, PAI DE YAGO DORA. FOTO RETIRADA DO INSTAGRAM DE YAGO

Leandro Dora, em seus tempos de Abrasp, usava o nome “artístico” de Leandro Breda e surfava pelo Estado do Paraná. Da mesma forma que Paulo Kid, Leandro tem vários atletas sob sua orientação, como o campeão mundial júnior Lucas Silveira; o próprio filho Yago; foi instrumental na carreira do saudoso Ricardinho dos Santos; e estava presente, ao lado de Adriano de Souza, na ocasião de seu título mundial da WSL em 2015.
A experiência e vivência em baterias destes técnicos é um dos grandes trunfos que temos para o atual sucesso desta Brazilian Storm. Além do início de temporada fulminante por parte de Jessé Mendes ainda temos de destacar a vitória de Yago Dora em Newcastle e o vice-campeonato de Adriano de Souza em Pipeline.

PÓDIO DE NEWCASTLE 100% BRASILEIRO, COM JESSÉ (VICE) E YAGO (CAMPEÃO) EM PLENA AUSTRÁLIA. NAS FOTOS DE AÇÃO ABAIXO, YAGO E ALEJO MUNIZ VOANDO. REPRODUÇÃO DE WEB PAGE DA WSL

ADRIANO DE SOUZA RUMO A SUA TERCEIRA FINAL EM PIPELINE. FOTO RETIRADA DA COBERTURA DO VOLCOM PIPE PRO 2017 NO SITE WAVES

Adriano já tem um título do Billabong Pipe Master (em 2015) e duas finais do Volcom Pipe Pro – 4º em 2014 e 2º em 2017. Adriano e Gabriel (ao lado de Wiggolly Dantas e Ian Gouveia), são alguns dos surfistas brasileiros do primeiro escalão que investiram tempo e treino, muito treino, nas decisivas ondas de Pipeline. Dividendos estão sendo e serão colhidos.

Estamos na porta da temporada 2017, com grandes expectativas para o surf brasileiro. E muitos surfistas internacionais aptos para fazer frente.

A história recente e as origens do surf brasileiro estarão documentadas no livro A GRANDE HISTÓRIA DO SURF BRASILEIRO previsto para ser lançado no final deste ano. Finalmente o projeto cultural foi aprovado na Secretaria de Cultura. Acompanhem todos os desdobramentos e novidades neste blog.


Conheçam detalhes em: http://www.hsurfbr.com.br/

domingo, 15 de janeiro de 2017

ENTREVISTAS SELECIONADAS

Mais passagens históricas do surf brasileiro

Para concretizar o livro A GRANDE HISTÓRIA DO SURF BRASILEIRO um dos mais importantes pedestais em que estou apoiando este projeto é a coleção de entrevistas que venho compilando nos últimos quatro anos. Nossos pioneiros têm histórias interessantíssimas.
NA CASA DE RUSSELL COFFIN (AO CENTRO), EM SAQUAREMA, COM OTÁVIO PACHECO
FOTO: JACQUES NERY

Estas entrevistas (já tenho ao redor de uma centena em meu computador), trazem detalhes que nunca caberiam dentro dos 5 VOLUMES de minha obra impressa, pois terei de adotar uma abordagem mais sucinta colocando as informações mais importantes e apenas pequenos trechos, entre aspas. Já aqui em meu BLOG – “Histórias do Surf”, posso dar asas aos pensamentos e falas completas, histórias detalhadas destes surfistas pioneiros que viveram e protagonizaram a sedimentação do esporte em nosso país.
Trago aqui neste post 4 grandes personalidades que fizeram parte desta história, para os que curtem uma leitura mais aprofundada de passagens pitorescas da evolução do surf. Voltemos às raízes.
Garanto que é um belo entretenimento. Divirtam-se...

IRMÃOS PAIOLI
O que vão ler a seguir é um esboço, o início do texto, que foi preparado a pedido do editor Adrian Kojin, na época em que ele dirigia a redação do TSJ (The Surfer’s Journal) Brasil. Essa matéria ficou inacabada, pois a revista encerrou as atividades no Brasil antes dela ser publicada. Eu estava montando em estilo perfil, mas a base é uma entrevista que fiz com os dois célebres irmãos, na casa de meus pais no Jardim Paulista, em janeiro de 2013.

Sugestões de Título: FROM SCRATCH
(seria o título ideal se fosse a edição do TSJ em inglês)
POR TENTATIVA E ERRO
ou
PARTINDO DO “QUASE” NADA
Os irmãos José Carlos Paioli e Francisco Paulo Paioli são verdadeiras instituições do surf paulista, mais do que lendas vivas, são personagens folclóricos, carismáticos e surfistas inveterados adentrando os 60 anos de vida na ativa. Conhecer a história deles é cavar em busca de uma das raízes mais profundas do surf paulista.

ZÉ E CHICO PAIOLI, IMAGEM RECORTADA DO PORTAL UOL
José Carlos Paioli (1949)
Francisco Paulo Paioli (1951)

Todos sabemos dos atos pioneiros de surf em Santos nos Anos 1930, com Osmar, Thomas, Juá e suas pranchas estilo Tom Blake. Mas o surf em São Paulo começou a andar “de vez” apenas no início dos anos 60. Aqui temos diversas histórias, em praias diferentes, com artefatos distintos, pranchas construídas de forma diferenciada. Mas quando perguntamos a todos os pioneiros, sempre, os irmãos Paioli aparecem como referência.
Eles começaram a surfar quando moravam na praia do Itararé, em São Vicente e nunca deixaram de lado sua paixão da infância. Participaram do primeiro campeonato em São Paulo, em 1967 e até hoje não perdem os encontros para veteranos, ou as etapas do SP Contest.
POSTER DE EVENTO REALIZADO EM HOMENAGEM A CHICO PAIOLI NA RIVIERA DE SÃO LORENÇO, EM DEZEMBRO DE 2015. ESTA FOTO FOI TIRADA NA PRAIA DE PITANGUEIRAS, NO GUARUJÁ, EM 1967

Zé Paioli é um industrial, trabalha com um sistema de detecção de trincas em equipamentos fabris e tem casa na Barra do Una, São Sebastião, no litoral norte de São Paulo, seu pico local é o canto direito da praia de Juquehy, onde muitos o consideram o “xerife” da área.
Chico por sua vez, sempre com uma atitude mais “flamboyant”, faz barulho em todos os lugares que chega, cumprimentando a todos e causando alvoroços. Além de ter se transformado em um atleta vencedor, campeão paulista e brasileiro de longboard máster, no final dos anos 80 e início dos anos 90 é considerado um dos técnicos de surf mais categorizados do ramo.
Eles mudaram de São Vicente para Moema, na capital paulista, em 1967. A Escola Paioli de Natação sempre foi um marco do bairro na esquina das ruas Pavão com Canário. O pai deles, Carlos Paioli, falecido em 2005, aos 85 anos, já era um atleta por opção, nadou no Rio Tietê quando ainda era limpo, os filhos se transformaram em exímios nadadores. Foi o pai deles que organizou, ao lado de Geraldo Faggiano, o primeiro campeonato de surf da Ilha Porchat em 1968, que contou com as presenças dos cariocas Carlos Mudinho e Rico de Souza.
Vamos conhecer como eles se envolveram com o surf, foi a partir de 1964.

ZÉ PAIOLI SURFANDO NO GUARUJÁ EM 1974
FOTO: JUNJIRO NAKAMARA

PRIMÓRDIOS DO SURF NO ESTADO DE SÃO PAULO
ZÉ: “Comecei a me interessar pelo surf pois eu era nadador, foi vendo uma reportagem da revista O Cruzeiro, do pessoal do Rio de Janeiro, que já havia começado. Na reportagem falava da história do surf, do Hawaii, aquelas coisas todas. Mostrando como o esporte estava se desenvolvendo no Brasil e no Rio já tinha um pessoal praticando.
Eu ia para a praia em São Vicente, mas não havia visto ninguém surfando. Depois disso vi dois irmãos, que eram da família Montenegro. Eles estavam com uma prancha de madeirite, na praia do Itararé. Eu nunca havia visto uma prancha ao vivo. Então fui lá e perguntei como eles haviam feito a prancha. Eles me disseram para pegar uma tábua de madeirite de construção, cortar no meio e levar numa marcenaria, fazer o outline, fazer um rasgo para colar uma quilha com o formato da barbatana de um tubarão e colar com Araldite. Eles nos explicaram como fazer. Eram nossos vizinhos ali no Itararé, em São Vicente.
Isso foi em 1964, eu tinha 15 anos e era colega do irmão mais velho do Cocó, o Geraldo Faggiano Junior, fomos à noite numa obra que tinha na Av. Presidente Wilson, na esquina da rua da nossa casa (tinha uma pilha de madeirites lá) e pegamos duas tábuas. Uma para cada um. Levamos para casa e no dia seguinte fomos em uma marcenaria lá perto, na Marechal Deodoro, perto de onde hoje é a oficina do Delton Menezes – Classic Longboards.
Primeiro cortamos. Foi tudo de olho, fui orientando na hora. Nem lembro de ter reparado na prancha dos Montenegro se elas tinham envergadura, só o detalhe da quilha. Demos uma arredondada na borda, lixei e pintei a prancha. Naquela época era um compensado de madeirite bem melhor que os de hoje, ele não desfolhava, era mais grosso, a qualidade era muito superior. Em casa eu abri um rasgo, coloquei uma quilha, sem envergar. Pintei ela de preto. Depois de um tempo descobrimos como envergar a prancha, esquentando o madeirite.
O PRIMEIRO SURF
“Quando ela ficou pronta peguei meu irmão Chico, Paulinho nosso primo e pedi para meu pai me levar na praia, era um dia chuvoso, pavoroso, horrível. Foi todo mundo em um Fusca, nem lembro como chegamos na praia. Peguei a prancha... Só queria saber de experimentar ela. Eu não sabia de parafina, de vela, não sabia de nada. Fui lá para dentro do mar e remava, mas não conseguia entrar nas ondas.
Eu era um bom nadador, fui para a água e fiquei nadando com a prancha até um certo ponto. Fiquei uma a duas horas na água e consegui ficar em pé em uma onda. Nossa, quando eu consegui... Caramba! Maravilhoso. Foi a primeira experiência minha. Eu tinha 15 anos. O Chico tinha 13, ele nem surfou nesse dia. Não tinha mais ninguém na praia. Ninguém. Eu não via ninguém surfar no Canal 1, Canal 2. Mesmo aqueles irmãos Montenegro, eu nunca mais os vi. Depois o Chico começou a ir comigo”.
CHICO: “Eu acompanhava ele, pegava a prancha dele e surfava. A gente ia para o fundo e entrava na onda estourada. Aquela onda do Itararé tem muitas seções. A gente entrava na espuma e de repente abria uma parede, do nada, dava para cortar a onda. Foi fácil de aprender”.

ZÉ: “Tem uma história que quando nós roubamos a segunda madeirite, a notícia começou a espalhar na praia. E o pessoal começou a correr atrás e a pilha que tinha naquela obra começou a baixar. Aí o que acontece? Tinha uma turma indo lá de noite e os operários da obra pegaram os caras e levaram para a delegacia. Foram presos. Só que eram moleques. O problema é que quando começou todo mundo a querer saber, nós demos a letra de que era naquela obra que tinha os madeirites. Começou a baixar a pilha até que pegaram os caras. Isso já era em 1965, ainda surfávamos com pranchas de madeirite. Aos poucos foram aparecendo mais surfistas”.
CHICO: “Na verdade foi uma coisa muito rápida, que fica difícil você estabelecer: quem, como, quando”.
VAMOS CONSTRUIR PRANCHAS DE FIBRA
ZÉ: “A primeira prancha de fibra que a gente fez, foi depois que apareceu o Jô Hirano e o Manoel dos Santos, quando a gente estava surfando no Itararé com pranchas de madeirite, eles apareceram com duas pranchas ocas (de fibra). Uma cada um. Era oca e a envergadura dela parecia que era para baixo. Eles ficavam bem mais no fundo que a gente, pois as pranchas boiavam. Nós vimos aquilo e ficamos loucos”.
NOTA: As pranchas não eram ocas eram de isopor. O desenvolvimento do surf em São Paulo ocorreu em diversos focos e com iniciativas diferenciadas.
Em 1965 eles estavam com pranchas de madeirite. Nessa época apareceram as pranchas ocas “caixa de fósforo”, também de madeira. Em 1966 ouviram falar do Homero Naldinho (tenho entrevista ainda inédita com ele). Zé, depois de uns três meses que estava surfando viu uma prancha São Conrado, mas já estavam começando a produzir pranchas de isopor e fibra com o pai de Cocó (Eduardo Faggiano). Ainda estou procurando algumas peças deste quebra-cabeças para encaixar aqui. O fato é que Zé e Chico Paioli foram instrumentais no desenvolvimento do surf brasileiro.

Vejam mais algumas informações nestas postagens mais antigas.
MAS VOLTEM PARA LER O RESTO, POIS AGORA VAMOS AO RIO

QUADRO QUE ESTAVA NO QUEBRA-MAR DE SANTOS
NA TURMA, JÔ HIRANO É O PRIMEIRO À ESQUERDA E ZÉ PAIOLI O ÚLTIMO À DIREITA

Zé e Chico Paioli me passaram diversas informações, recortes de jornal e resultados dos primeiros campeonatos de surf realizados em São Paulo nos anos 1960. Ainda farei uma postagem abrangente sobre estes eventos, com fontes cruzadas e belas fotos que existem disponíveis. Sem contar a brilhante partição de Chico Paioli como técnico de diversos surfistas vencedores na Era da Abrasp, a partir dos anos 80 e 90.

Nossa história permanece em 1964.



ARDUÍNO COLASSANTI
Arduíno Colassanti nos deixou em 2014, acabei não tendo a oportunidade de entrevista-lo pessoalmente, mas Rafael Mellin, do Grupo Sal, me cedeu (na íntegra) o áudio da entrevista feita para a série de programas 70 E TAL que foram exibidas no Canal OFF. Quem conduziu esta entrevista foi Julio Adler, em fevereiro de 2013.

ARDUÍNO COLASSANTI
Livorno 15 de fevereiro de 1936
Niterói 22 de fevereiro de 2014

Arduíno, nascido na Itália, radicado no Brasil ainda adolescente, era uma das estrelas daquele Arpoador dos anos 1960, sua história é fantástica, ganhou notoriedade como galã de cinema, participando de mais de 20 longas metragens, diversas pornochanchadas de sucesso. Da turma da pesca submarina, ganhou dinheiro como mergulhador profissional, muito tarimbado, trabalhando para a Petrobras e até como consultor internacional para mergulho no Brasil. Em anos mais recentes sua participação na história do surf brasileiro toma peso. Vamos ver o que ele tem a falar sobre isso. Destaco inicialmente a mais impactante frase da série 70 E TAL.

“Eu sou vagabundo, gosto de ficar na praia, ver o pôr de sol (nas pedras do Arpoador), bater palmas.  Eu sou vagabundo e tenho até um certo orgulho de ter dado a volta na sociedade”.

ARDUÍNO COLASSANTI, NO ARPOADOR, EM MEIO A DOIS AMIGOS
IRENCYR BELTRÃO E ARDUÍNO DE SUNGA, MADEIRITES NO ARPOADOR
FOTOS: ACERVO PESSOAL

ARDUÍNO: “Meu interesse pelo mar vem desde criança, mesmo na Itália, nas férias, íamos sempre para uma cidadezinha de pescadores à beira-mar passar as férias, uma aldeia chamada Porto San Giorgio, no Adriático. Eu sempre adorei o mar. Aprendi a nadar sozinho. Sempre gostei de mergulhar também, de reter meu fôlego. Era uma exibição que meu pai fazia de ficar um minuto sem respirar. Eu via ele enfiar o rosto na água e ficar um minuto, aquilo me entusiasmou muito e eu sempre gostei de mergulhar. Mas o início do mergulho mesmo foi quando eu coloquei uma máscara e isso aconteceu no Arpoador. Eu me maravilhei com a vida marinha, os peixes, as esponjas, estrelas, enfim... Tudo que pinta embaixo d’água e que é muita coisa.
Na época que eu comecei só existia um modelo de máscara na Casa da Borracha e como meu rosto era muito pequeno eu tinha que colocar duas rolhas debaixo das tiras, para poder apertar a saia da máscara contra o meu rosto. Como eu disse, foi um alumbramento e eu comecei a mergulhar regularmente. Para ir para a praia eu saia do Jardim Botânico, do Parque Lage, de bonde, naquela época ainda tinha bonde, era uma delícia. Levava uma tábua de jacaré, a máscara e as nadadeiras. Se tivesse dando onda eu ia surfar, se estivesse calmo eu ia mergulhar atrás das pedras do Arpoador com a máscara.
A turma era o Irencyr Beltrão, o eterno Jorge Grande, que era mais velho que a gente e quando chegamos a praia ele já era mitológico e a gente chamava ele de Matusalém, só porque era um pouco mais velho do que a gente. Tantos outros, Gil Laport. Jorge Paulo Lemann, ia à praia e quando chegaram as primeiras madeirites ele era o que pegava melhor. Lembro bem do amigo Jorge Paulo e dos cantores irmãos lourinhos (Valle), os outros não permaneceram nem na memória, nem na praia.
Era uma turma eclética e os estrangeiros frequentavam muito o Arpoador, não sei se pelas pedras, ou as ondas. Era uma variedade de pessoas que embelezava a praia, dava valor e frequentavam muito, tinha a turma dos franceses, dos alemães. Esses estrangeiros que criaram um clima mais liberal nos anos 50 e início dos anos 60. Os gringos namoravam com mais ardor, livremente.
A turma dos músicos, Ronaldo Bôscoli também ia, Menesca, pesquei muito junto com Roberto Menescal. Íamos até a casa de um outro amigo músico em Iguaba Grande para pescar em Cabo Frio, Arraial do Cabo. Só que esses músicos, chegava a noite, eles “biritavam” e nós, querendo pescar, eu, Menesca, Gilberto Laport, ficávamos roendo as unhas e eles roncando de manhã por causa da birita.
O primeiro surfista que eu vi de pé em cima de uma prancha foi o Paulo Preguiça (Tati), que era câmera da TV Tupi e quando estava de ressaca e as ondas vinham lá de trás no Arpoador ele aparecia com uma prancha que as pessoas usavam para pegar ajoelhados, que se chamava porta de igreja, porque era uma coisa quase quadrada, só era um pouco arredondada na proa, na frente. Ele pegava o início da onda no pontão e quando dava aquela enchida, que a onda dá ali, ele ficava em pé na prancha, descia um trechinho e caia. Foi o primeiro que a gente viu surfar em pé.”

EMBLEMÁTICA FOTO DE ARDUÍNO COLASSANTI COM UMA PRANCHA PORTA DE IGREJA NO ARPOADOR
FOTO: ACERVO IRENCYR BELTRÃO

ARDUÍNO: “Aí, eu resolvi fazer uma prancha tipo havaiana, só que o material que a gente tinha aqui, que era o isopor, era corroído pela resina de poliéster. Eu fiz várias tentativas de isolar o isopor da resina, mas sempre ficava um furinho e com isso destruí umas três pranchas, que eu tinha feito com muito trabalho, esculpindo no isopor. Aí eu fui na Shell e eles me indicaram a resina epóxi e de fato eu consegui fazer a primeira prancha coberta com fibra de vidro e resina epóxi. Fiz de orelhada.
Bem, eu estava nas minhas primeiras experiências com esta prancha, quando pintou no Rio – Peter Troy. Um australiano que tinha ido surfar no Peru, desceu pelo Amazonas e veio parar aqui no Rio e foi parar no Arpoador, porque era a praia dos surfistas. Ele estranhou muito as pranchas de madeirite, que era o que a gente usava para surfar naquele tempo. O problema é que ele estava doente, nessa passagem pelo Amazonas ele pegou algumas doenças tropicais, provavelmente todas, pois era um gringo, da Austrália. E ele se curou na casa do Irencyr, o Barriguinha que também era surfista, ele foi tratado lá porque o pai dele era médico.
Quando Peter Troy ficou bom, veio para a praia. Eu emprestei logo a minha prancha e ele deixou a gente de boca aberta. Ele ANDAVA na prancha. Estávamos acostumados com as madeirites e ainda usávamos as nadadeiras e assim você não se mexia muito em cima da prancha. Aí entrou um sudoeste e resolvemos ir até o Recreio, para ele mostrar mais e de fato ele pegou uma onda, deu um bottom turn, aquela virada no fundo da onda, no cavado, rapidíssimo e muito radical, muito pra dentro da onda. Na segunda tentativa ele foi dar o mesmo bottom turn, para correr até o bico da prancha, mas a virada foi tão brusca que ele arrancou o fundo da prancha. A quilha estava presa num isopor mais fino, porque o isopor era caro. Ele arrancou tudo.”
Julio Adler pergunta da prancha que ele fazia no próprio Arpoador e com o vento grudava um monte de coisas na resina que ainda não havia secado.
ARDUÍNO: “Isso é uma visão do Barriga, que é um perfeccionista, quando ele fez a dele, deu brilho com uma escova de dente. Imagina, dar brilho com uma escovinha numa prancha de três metros. Ele realmente é meticuloso. E eu nem tinha espaço onde fazer a prancha que não fosse a praia. É que eu não tinha outro lugar. Depois achei uma garagem de uma ex-namorada minha. Mas até então eu não tinha onde fazer as pranchas, então fazia na praia. Era até divertido, tinha as meninas que passavam por ali.
Quando eu ia até a praia desde o Parque Lage, eu levava material para todas as atividades. Até que comecei a namorar uma menina que morava na R. Joaquim Nabuco, aí ficava mais fácil do que trazer tudo de bonde. Eu tinha que estar preparado para tudo. Os que moravam ali perto, em Ipanema, olhavam pela janela e se o mar estivesse de ressaca iam surfar, se estivesse manso já sabiam que era dia de mergulho.
Em meados dos anos 1960 começou a ficar mais crowd, me lembro que um dia chegando na praia com um colega, olhei assim e contei 16 pranchas no Arpoador, virei para o meu amigo e falei: ‘Olha, nosso esporte acabou’. Agora vamos ter que brigar para pegar ondas e de fato foi o que rolou. Dezesseis pranchas hoje é um dia vazio. RISOS. Acho que só no inverno, com água gelada e chovendo.
A primeira geração dos surfistas foi se afastando porque para surfar, você precisa surfar bem. E para surfar bem precisa surfar todo dia e as obrigações da vida acabaram afastando os mais diligentes. Só os vagabundos que nem eu que continuaram.
Mergulho para mim virou um trabalho, eu trabalhei na Petrobras sou consultor para o Brasil. É uma profissão. É preciso ser muito treinado para trabalhar nisso. É preciso ter capacidade. Trabalhei como mergulhador, fiz pesca de mergulho, mergulho para fotografar, mergulho contemplativo, para admirar.
Quando mudei para Niterói, fiquei no mergulho porque não tinha lugares de ondas propícias aqui por perto. Decidi não ter carro, para nunca ser pego na ponte em congestionamentos de 3 horas... Vou de barco.”
Julio pergunta o que acha das revistas de surf estarem procurando ele hoje (2013), como pioneiro do esporte?
ARDUÍNO: “Foi legal a gente ser reconhecido, ter um lugar ao sol. No início, por uma certa má compreensão da sociedade, da maioria, com relação aos surfistas, eu lembro que no paredão do Arpoador escreveram “FORA COM A CORJA DO SURF”, picharam em letras de dois metros. Obviamente não era uma citação simpática. Mas depois foi se criando um certo romantismo na história toda e passamos a ser bem aceitos. E aí apareceram os especialistas, que só queriam saber de ondas. Se não tivesse ondas no Arpoador, iam buscar em outro lugar. Coisa que no meu tempo não se fazia. Houve ao longo dos anos essa variação no esporte e na própria aceitação do esporte.
A prancha do Russell Coffin ficou sendo a única durante um tempo, foi a prancha em que o Peter Troy deu a demonstração de como se surfava. Hang Ten e essas coisas. Foi um choque cultural, realmente, porque não só ele mostrou a possibilidade de manobras com a prancha, como desenhou até um gabarito, para a gente fazer as nossas. E eu havia descoberto a técnica do isopor com resina epóxi, então ele deixou um gabarito para fazermos as pranchas. A minha por exemplo tinha 3 metros e meio, era um absurdo de grande. Era tão flutuante que eu me lembro do Persegue (Jorge Bally), que ficou em pé para olhar golfinhos de cima dela – era como uma stand up.”
Você nunca pensou em pegar onda de SUP?
“Não posso mais pegar sol – câncer de pele.”

Vamos passar o bastão para outro importante protagonista nesta história.

RUSSELL COFFIN
 RUSSELL EM SAQUAREMA
FOTO RENATA COFFIN

Esta entrevista foi realizada em agosto de 2015, em Saquarema. Russell Coffin nasceu em 17/1/1949 em Niterói – RJ.
RUSSELL: “Meus pais são Americanos. Quando aconteceu a II Guerra Mundial ele não podia servir porque teve um acidente e ele tinha problema de vista, então ele não se qualificava para o campo de batalha e a CIA, que naquela época nem tinha esse nome, era OSS (Agência de Serviços Estratégicos) – que era o serviço de inteligência americano até 1949, contratou meu pai, Wid Coffin, ele fez um curso de português lá em Nova Iorque. Na verdade, era um espião de gaiato, mandaram ele para o Brasil e o “cover” (disfarce) era o trabalho com a Coca-Cola.
Na real, meu pai estava filhado ao embaixador americano e o objetivo era saber os movimentos da Alemanha por aqui. Mais tarde ele contava estas coisas rindo, pois foi tudo feito de forma amadora. Ele foi preso no Rio de Janeiro, tirando fotos de instalações militares, isso nos anos 40. Daí o embaixador americano, ou o cônsul, teve de ir lá tirar ele, mas foi por isso que ele começou com a Coca-Cola aqui.
No Rio estudei na Escola Americana, mas essa história do meu início no surf foi assim, eu tinha passado uma temporada nos Estados Unidos e fiquei estudando lá por um ano, estava no último ano do 2º Grau. Quando eu voltei para o Brasil meus pais estavam procurando uma casa para morar no Rio, isso foi por volta de julho de 1964, eu tinha 15 anos quando cheguei dos EUA. As aulas começaram por volta de setembro.
 Quando eu voltei da Califórnia eu nem sabia que o Arpoador existia. Eu não conhecia aquela parte, a praia de Ipanema, morávamos em uma casa alugada em Copacabana e meus contatos eram mais com americanos naquela época, os colegas. O que eu fazia? Saía andando pela Avenida Princesa Isabel e chegava na praia colocava a prancha na espuma e saia remando. Eu não cheguei a surfar na Califórnia pois o colégio que eu estudava era no interior. O que aconteceu é que eu vi o pessoal surfando na televisão e fiquei com vontade de pegar ondas. Pensei, eu moro em Copacabana, lá tem onda e antes de ir para os EUA eu já pegava ondas de peito, antes da época do isopor. Eu usava aquelas tabuinhas Oceania, de madeira com o bico envergado. Eu sabia que tinha ondas no Rio de Janeiro, mas eu não tinha a mínima ideia de que já existia uma turma pegando de madeirite. Em Copacabana eu fui aprendendo sozinho, fui só pegando ondas na espuma e ficava em pé. Isso foi por algumas semanas e logo em seguida as aulas começaram.
Você sabe que quando alguma coisa é para acontecer existem aquelas fatalidades. Um dos meus professores, o de Educação Física, o nome dele era Maíza e ele soube da prancha porque escutou eu falando, eu devo ter chegado lá tagarelando para todo mundo que eu tinha uma prancha de surf, que havia comprado na Califórnia...
O Maíza deve ter escutado essa conversa toda e num belo dia eu saio das aulas lá na Escola Americana, que era lá no Leblon e quando eu saio estavam me esperando o Maíza e o Arduíno. O Arduíno era uma figuraça, quando o Maíza comentou com ele, falou: ‘Pô, vamos cercar esse cara’. Eu nunca vou esquecer a cena do Arduíno de sunga, aquelas bem pequenas que ele usava, na porta da Escola Americana. Ele já tinha aquela pinta de galã e era uns 10 anos mais velho do que eu, se eu tinha uns 14, 15 ele deveria estar com 25 pra mais. Ele estava junto com o Maíza e foi se apresentando, eu não tinha a mínima ideia de quem era ele, mas veio com o papo da prancha e queria ver a prancha, porque tinha um australiano que estava aqui no Brasil... Eu achei legal. Vamos lá.
Eu era um pivetinho, ele deve ter me pegado pelo cabelo, vamos buscar a prancha. E partimos no jipe do Arduíno. Para mim, a partir dali, tudo passou a ser uma aventura. Era aquele jipe da Willys que deitava o vidro da frente. Fomos até a minha casa, pegamos a prancha, colocamos em cima e chegamos no Arpoador. Eu lembro ‘pedaços’ do que aconteceu. Ninguém ia imaginar que isso iria ficar uma coisa tão importante. Eu não tinha noção do que estava me esperando lá, estava acostumado a ir para Copacabana com a prancha e ficar no meio dos turistas. Eles olhavam e imaginavam, ‘O que é isso?’; eu também não explicava nada em português.
O fato é que chegamos no Arpoador e tinha uma galera de umas 20 pessoas já esperando. Já tinham ouvido falar. Assim que o Arduíno estaciona vem aquele monte de gente, querendo colocar a mão na prancha e não sei o que, provavelmente eu estava super acuado. A primeira coisa que me marcou é que aquela galera de surfistas mais velhos, que eram os principais daquela época, o Arduíno, o Irencyr, o Armando Serra, Badué, talvez o Walcyr, irmão do Marcelo Rabello, que era a turma da caça submarina, que passou para o surf, esses caras estavam todos na faixa dos 20 anos e eu com 15 anos era um pivetinho. Para você então, quem está com 22 para 24 anos, todos são ‘deus’. Mas foi uma recepção maravilhosa, lógico, eu era o dono da prancha. Eu tentava entender o que estava acontecendo e me aparece esse deus loiro na minha frente que era o Peter Troy - “Hi mate!”, com aquele sotaque típico, conversei em inglês com ele um pouquinho no início. No começo estranhei, todos os australianos falam um inglês estranho, mas ele me entendeu. No fim ele ficou até contente de ter alguém para falar inglês.
As ondas estavam com bom tamanho, pois lembro que estavam quebrando no pontão, mas para mim, com 15 anos e nunca havia visto ninguém pegar ondas antes, as ondas pareciam enormes. Talvez não era tudo isso, mas dá para dizer que tinha algumas ondas de 2 metros tranquilamente. Uma frase que lembro claramente é de ter pedido para ele dar um hang ten: “Peter, please do a hang ten for me to see”. Eu tinha algumas revistas de surf e as manobras eram o hang ten e o hang five. Uau man! Como faz isso? Eu não tinha a mínima ideia.
Ele pegou a prancha, foi lá fora e ele entrava naquelas ondas, mas estava um dia meio fechando, não era um dia clássico, o mar também estava meio mexido, mas ele entrava em qualquer onda e ia até o bico e a onda quebrava, BUM. A prancha ia para um lado, ele para o outro. E toda vez que a prancha vinha perto daquelas pedras, eu começava a gritar, mas a galera toda já vinha cercando a prancha e não deixava acontecer nada. Foi isso que eu lembro. O pessoal passando a mão na prancha.
Essa foi a primeira prancha desse tipo no Rio de Janeiro, se em Santos, ou em algum outro lugar, existiu outra prancha? Pode até ter tido, mas não é muito provável, pois você teria ouvido falar. Mas é possível.
Comecei a frequentar o Arpoador todos os dias saindo das aulas. Eu deixava minha prancha no apartamento do Mário Bração, ou na garagem do Geraldo (Fonseca) e eles usavam minha prancha também. O que eu mais lembro é de ficar sentado na areia, esperando aqueles caras ‘grandões’.
E O SURF NO RIO DE JANEIRO NUNCA MAIS FOI O MESMO
Isso foi em setembro de 1964 – três meses depois que Peter Troy deixou o Brasil já havia várias pranchas importadas e provavelmente Arduíno, com as informações do Peter Troy, já tinha feito uma ou duas pranchas novas”.

RUSSELL COFFIN, SURFANDO NO ARPOADOR, COM A FAMOSA PRANCHA BING 9’6” QUE EMPRESTOU PARA PETER TROY CHOCAR TODOS OS SURFISTAS BRASILEIROS

RUSSEL SURFANDO EM ITAÚNA
FOTO RECENTE DE SEU ACERVO PESSOAL

A entrevista com Russell Coffin tem mais uma hora e 10 minutos, com muitas informações, sobre sua atuação como empresário no ramo de blocos de poliuretano (Clark Foam do Brasil), bem como de seu envolvimento na criação do Parque Marinho de Fernando de Noronha. E, principalmente, de como era tudo naquele começo do desenvolvimento do surf, quando as pranchas de fibra de vidro tomaram conta do cenário.

GERAÇÕES E GERAÇÕES
Hoje o Brasil começa a experimentar um fenômeno que já está cristalizado em lugares como os EUA (Hawaii) e Austrália. Em breve estaremos com nossa terceira geração de surfistas marcando presença na “ponta” do surf mundial. Já estamos, com filhos de grandes surfistas como Ian Gouveia, Miguel Pupo e Filipe Toledo participando da elite.

LEO PAIOLI, FILHO DA IRMÃ DE ZÉ E CHICO, NA PRAIA DE MARESIAS
FOTO RETIRADA DO FACEBOOK DOS PAIOLI

Leo já tem uma filhinha que vive nesse meio, na praia e brevemente poderá ser uma membra ativa de nossa terceira geração, sob a tutela dos tios-avôs. Da mesma forma que Ian e Filipinho já estão encaminhando netinhos de campeões.
Para finalizar e não deixar de dar uma pitada de atualidade nesta postagem, destaco o quinto lugar de Mateus Herdy (sobrinho de Guilherme), filho de Alexandre Herdy, que era o mais jovem surfista no Mundial Pro Junior da WSL, agora em janeiro de 2017. Mateus fez 16 anos na véspera do evento, que agora está restrito a atletas até 18 anos, antes era Sub-21.

TIO GUILHERME HERDY, PRIMEIRO BRASILEIRO A PROTAGONIZAR UMA CAPA DA TRACKS AUSTRALIANA, NO TEMPO EM QUE AINDA ERA EM FORMATO DE TABLOIDE. FOTO DE 1997, COMPETINDO NO QUIKSILVER PRO G-LAND

MATEUS HERDY, DESTAQUE NA COBERTURA DO PORTAL SURFLINE

Todo este trabalho de pesquisa, enquanto o projeto cultural continua buscando a aprovação dos órgãos competentes, foi viabilizado pelo apoio dos parceiros presentes aqui do lado. O livro impresso será lançado em 5 VOLUMES a partir de 2017 e o blog continuará trazendo informações sobre todos os aspectos desta grande história.
Quer conhecer um pouco mais do início da fascinante história do surf no Rio de Janeiro? Três links de postagens mais antigas:

IMPORTANTE destacar que nenhum destes textos é o que sairá no livro definitivo. Este BLOG é um ensaio do projeto de pesquisa.
Tenho 100 entrevistas. Mais 100 talvez ainda seja pouco para contar esta maravilhosa história, que continua a ser escrita, com sucesso recente inusitado. Continuo a realizar meu trabalho com paixão.

Para buscar mais informações sobre o livro: WWW.HSURFBR.COM.BR