sexta-feira, 26 de maio de 2017

WCT BRASIL – 10 CAMPEÕES

Adriano de Souza se consagra em Saquarema
O Circuito Mundial de Surf passa pelo Brasil desde seu nascimento com a IPS em 1976, há mais de 40 anos. Nos eventos da elite (o WCT), conquistamos apenas 10 vitórias e Adriano de Souza é o único bicampeão.

MINEIRINHO ESTAVA EM PLENA SINTONIA COM AS ONDAS DE ITAÚNA
IMAGEM RECORTADA DOS ARQUIVOS DA WSL

Esta postagem vai glorificar os surfistas brasileiros que venceram a etapa de nosso país. Em todos estes anos o domínio australiano foi notório, eles levaram 22 eventos do WCT aqui realizados, mais da metade. Dave Macaulay (Mister Brazil), é o único tetracampeão; Taj Burrow e Kelly Slater têm 3 títulos; os bicampeões são John John, Mick Fanning, Damien Hardman, Cheyne Horan, Tom Carroll e agora Adriano de Souza.  
A etapa brasileira passeou pelas praias do Rio (Arpoador, Quebra-Mar, Prainha, Barra e até triagens na Macumba); SC - Floripa (Joaquina e a Caldeira do Diabo perto do Morro das Pedras), a praia do Silveira em Garopaba, na Vila de Imbituba aconteceram eventos antológicos; SP - nosso WCT passou pelo Guarujá em Pitangueiras e por Itamambuca em Ubatuba; criou raízes na Barra da Tijuca (Barramares e Postinho) e foi ao berço espiritual de Saquarema em 2002 e agora em 2017 novamente. Todas estas passagens e eventos serão destacados nos 5 VOLUMES do livro, “A Grande História do Surf Brasileiro” que tem previsão de lançamento a partir de 2017, 2018... A produção total prevê 660 páginas com informações históricas.
E por aí vamos, ao sabor de nosso mercado e das peripécias de nossos políticos que tanto afetam nossas vidas. Não podemos crucificar totalmente o poder público que também injetou valores significativos para a concretização de grandes eventos de surf.
Mas o momento agora é de celebrar!

DANIEL FRIEDMANN, DE BRANCO E PEPÊ LOPES, CAMPEÃO DE 1976
QUEBRA-MAR DA BARRA DA TILUCA, 1977 – FOTO: FEDOCA LIMA

NOSSOS 10 CAMPEÕES DO WCT BRASIL

1976 – PEPÊ LOPES
1977 – DANIEL FRIEDMANN
1990 – FABIO GOUVEIA
1991 – TECO PADARATZ
1998 – PETERSON ROSA
1999 – ANDRÉA LOPES
2010 – JADSON ANDRÉ
2011 – ADRIANO DE SOUZA
2015 – FILIPE TOLEDO
2017 – ADRIANO DE SOUZA

Em 1977 a primeira final 100% brasileira da (atual) Liga Mundial de Surf. Naquela época a entidade se chamava IPS (International Professional Surfers) a primeira organização do surf profissional no mundo.

DANIEL FRIEDMANN EM FOTO EXTRAÍDA DO PORTAL DA ALMA SURF E QUE TAMBÉM FOI A ABERTURA DA MATÉRIA DO WAIMEA 5000 DE 1977 NA REVISTA BRASIL SURF
FOTO: KLAUS MITTELDORF

Ninguém imaginava que levaria 13 anos para um brasileiro vencer novamente uma etapa do primeiro escalão do Circuito Mundial de Surf Profissional. O autor da façanha foi Fabinho Gouveia.

CAPA DA REVISTA HARDCORE NÚMERO 17, GOUVEIA CARREGA UMA GUN NO HAWAII
FOTO: ALBERTO SODRÉ
A EDIÇÃO TRAZ A COBERTURA DO HANG LOOSE PRO CONTEST REALIZADO NO CANTO DO MALUF EM OUTUBRO DE 1990
A PRIMEIRA SEMENTE DA BRAZILIAN STORM FOI PLANTADA EM 1988, NO MUNDIAL AMADOR DE PORTO RICO. TECO & FABINHO
FOTO: BETO ISSA
 EM 1991 FOI A VEZ DE TECO PADARATZ FAZER AS HONRAS DA CASA, VENCENDO O EVENTO DA ALTERNATIVA. PEPÊ LOPES, QUE ATÉ 1990 ERA O DIRETOR DO CAMPEONATO DO RIO DE JANEIRO, NA BARRA DA TIJUCA, FALECEU EM UM ACIDENTE DE ASA DELTA NO JAPÃO EM ABRIL DE 1991, DANIEL FRIEDMANN ASSUMIU A DIREÇÃO DE PROVA A PARTIR DESTA ETAPA
FOTO: AGOBAR JUNIOR

Foram mais seis anos vendo os gringos levantarem nossa taça até que Peterson Rosa, com uma performance espetacular, com um aéreo (ainda raro em competições) em plena final do evento, levou à loucura o público na Barra da Tijuca.

CAPA DA FLUIR DE NOVEMBRO EM 1998, A ÚNICA ETAPA DO WCT NO BRASIL FOI PATROCINADA PELA MARATHON (ISOTÔNICO). A FOTO DE AÇÃO DESTA CAPA É DE UMA EXPRESSION SESSION NA EUROPA, EM LACANAU. FOTO: TONY FLEURY. O INSERT DELE ERGUENDO O TROFÉU É DE SEBASTIAN ROJAS

No ano seguinte foi a vez de Andréa Lopes vencer o Rio Marathon Surf International na Barra da Tijuca. Foi a primeira brasileira a vencer uma etapa do WCT, já na era da ASP.


ABERTURA DE MATÉRIA PUBLICADA NA EDIÇÃO DE NÚMERO 122 DA REVISTA INSIDE NOW EM 1999. ANDRÉA FOI A RESPONSÁVEL POR PAVIMENTAR A TRILHA DO SURF FEMININO PROFISSIONAL PARA SUAS SUCESSORAS NA ASP: TITA TAVARES, JACQUELINE SILVA E SILVANA LIMA. FOTO DE MARCUS MENDONÇA
ANDRÉA LOPES EM CAPA DA REVISTA ALOHA (UMA PUBLICAÇÃO DA HARDCORE) EM 1998.
PUPUKEA, HAWAII, FOTO DE MARCELO PRETTO

Mais 10 anos em branco, sem nenhum de nossos surfistas desfraldar a bandeira brasileira rumo a um pódio de WCT na pátria mãe, até que Jadson André, arrebatador, venceu Kelly Slater numa final eletrizante em Imbituba.

EM 2010 OS AÉREOS INOVADORES DE JADSON FAZIAM A DIFERENÇA, O GRAU DE ACERTO DELE NESTA MANOBRA ERA FEROZ. PRAIA DA VILA IMBITUBA, ESQUERDAS LONGAS E PERFEITAS, CENÁRIO IDEAL PARA O BRASILEIRO ACELERAR E USAR SUA ARMA MORTÍFERA NA FINAL CONTRA A GRANDE ESTRELA, SLATER, NO AUGE NA ÉPOCA
FOTO RETIRADA DA COBERTURA DO GLOBO ESPORTE: DANIEL SMORIGO

Estávamos começando a engrenar de vez quando no ano seguinte o evento voltou para a Barra da Tijuca e Adriano de Souza vibrou muito e chorou ao lado da torcida brasileira, momento emocionante que foi escalado para ser uma das fotos da capa do VOLUME 1 dos livros que comporão “A Grande História do Surf Brasileiro”.

PROPOSTA DE CAPA DO LIVRO COM ARTE E PROJETO GRÁFICO DE FERNANDO MESQUITA
ADRIANO DE SOUZA, DE LYCRA AZUL, ERGUENDO A PRANCHA \ TROFÉU, NO BILLABONG RIO PRO DE 2011
FOTO: BASÍLIO RUY

VEJA TODOS OS CRÉDITOS DAS FOTOS DESTA CAPA EM: WWW.HSURFBR.COM.BR

Na década de 10 os surfistas brasileiros entraram de sola e começaram a conquistar pódios seguidos. Uma de nossas estrelas, Gabriel Medina, ainda busca uma vitória no WCT brasileiro, embora tenha vencido o HD Pro Junior World Championships de 2013 na praia da Joaquina. Em 2015 a vitória de Filipe Toledo no Postinho da Barra da Tijuca foi o evento de surf com maior cobertura na mídia brasileira – todos os tipos de veículos. E a torcida brasileira fez a diferença.

REPRODUÇÃO DA REVISTA SURFAR. FILIPINHO E A GALERA EM 2015.
MOMENTO MARCANTE REGISTRADO POR PEDRO TOJAL

A expectativa é que as praias de Saquarema, renomadas pela consistência, poder, perfeição e qualidade de suas desafiadoras ondas, permaneçam como a sede do WCT brasileiro. O point de Itaúna foi o palco ideal para Adriano de Souza se transformar no primeiro bicampeão brasileiro da etapa da WSL. Nosso “Maracanã”, para os surfistas desfilarem sua categoria.

VISÃO AÉREA DE ITAÚNA DURANTE O OI RIO PRO 2017
IMAGEM RECORTADA DA COBERTURA DA SURFLINE, FOTO: SEBASTIAN ROJAS

Saquarema e especificamente a praia de Itaúna proporcionou eventos épicos para o surf brasileiro e internacional, decidiu campeões nacionais e impressionou surfistas dos quatro cantos do globo. Os maiores surfistas que o Brasil já formou, treinaram, graduaram-se e venceram eventos em Itaúna.

OTÁVIO PACHECO, RICARDO BOCÃO, RICO DE SOUZA E CAULI RODRIGUES PRONTOS PARA ENCARAR AS ONDAS DE ITAÚNA EM 1978, QUANDO AINDA NEM EXISTIA UM CIRCUITO BRASILEIRO. CAULI FOI O VENCEDOR DE 1978 EM EVENTO PATROCINADO PELA ALA MOANA
FOTO: FERNANDO “FEDOCA” LIMA

AUTO-RETRATO (SELFIE) DO MAIS LONGEVO FOTÓGRAFO, ATIVO DESDE OS TEMPOS DA SAUDOSA BRASIL SURF – FERNANDO MENDONÇA LIMA, ITAÚNA 2017.
NÃO É À TOA QUE FEDOCA É O ÚNICO FOTÓGRAFO AUTOR DE 2 FOTOS NO PROJETO DA CAPA DO LIVRO EXIBIDA ACIMA
FOTO: FEDOCA

Depois de muitas histórias voltamos à realidade do momento. Os surfistas da elite passaram por Saquarema e seguem para Cloudbreak em Fiji. Mais adrenalina e emoção. A história do surf brasileiro continua a ser escrita e um grande ingrediente do Oi Rio Pro 2017 foi a performance do wildcard Yago Dora.

YAGO DORA DE BACKSIDE, OU DE FRONT, DEU SHOW EM ITAÚNA
FOTO: FEDOCA LIMA. IMAGENS DE FEDOCA RECORTADAS DO SITE RICOSURF

A performance de Yago, derrotando três campeões mundiais no processo, valeu um novo convite de wildcard para o OuterKnown Fiji Pro, patrocinado pela marca de Kelly Slater que entra para ajudar a bancar a mais cara e glamorosa etapa da WSL.
Para finalizar, vejam essa imagem que recortei de uma matéria recente no site da WSL (tradução logo abaixo como legenda da foto).

NA FOTO A CHAMADA DIZ “DORA TIRA JOHN JOHN FLORENCE”, DESTACANDO QUE O WILDCARD DO OI RIO PRO FORÇOU A SAÍDA MAIS PREMATURA DO ATUAL CAMPEÃO MUNDIAL NESTA TEMPORADA, NO ROUND 3. MAIS INTERESSANTE AINDA É A DECLARAÇÃO DE MICK FANNING QUE VEM NO TEXTO LOGO ABAIXO DA FOTO
FANNING, QUE FOI UM DOS CAMPEÕES MUNDIAIS DERROTADOS POR YAGO DURANTE O OI RIO PRO, AO LADO DE MEDINA E JJ FLORENCE, DISSE SOBRE YAGO: “ESSE GAROTO NÃO É BRINCADEIRA, ELE É UM GRANDE SURFISTA E O FATO DE TER DERROTADO TANTOS CAMPEÕES MUNDIAIS, DA FORMA COMO ELE FEZ, DEVEMOS FICAR ESPERTOS. ACHO QUE ELE TERÁ UM FUTURO BRILHANTE. FICO EXCITADO COM ISSO, GOSTO DE VER QUANDO APARECEM ESTES SURFISTAS JOVENS EM ASCENSÃO E ATIRAM UM GATO NO MEIO DOS POMBOS.”
A REPORTAGEM SOBRE YAGO DORA FECHA COM A EXPECTATIVA DE BOAS ONDAS PARA A ETAPA DE FIJI, QUE TERÁ INÍCIO NO DIA 4 DE JUNHO PARA OS HOMENS E ANTES AINDA PARA AS MENINAS
IMAGEM RECORTADA DO SITE DA WSL


Aguardem para breve a segunda parte da entrevista que fiz com o legendário surfista Maraca, em minha última viagem a Saquarema (agosto de 2015), com destaque para o relato de um mar gigante que ele surfou no Baixio de Copacabana. Preservar histórias, imagens e fatos que dão gosto de ler e conhecer. Este é o objetivo deste blog.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

CAIO IBELLI TOCA O SINO

E as estrelas da WSL migram para Saquarema

O surfista do Guarujá Caio Ibelli é o quarto brasileiro que tem a honra de tocar o tradicional sino, troféu ofertado ao campeão (e vice) do evento Rip Curl Pro Bells Beach, no Estado de Victoria, no sul da Austrália.

CAIO IBELLI COM O “SININHO” DE VICE-CAMPEÃO EM BELLS BEACH
FOTO: KELLY CESTARI \ WSL

A performance do brasileiro na emblemática onda australiana entra para a história. Caio exibiu uma bela linha nas perfeitas, porém difíceis de serem bem surfadas, direitas de Bells Beach. A bateria final foi de alto nível, com ambos os surfistas atingindo scores acima de nove. Resultado final: Jordy 18,90 contra 17,46 de Caio.

CAIO COM ESTILO PERFEITO NO BOWL DE BELLS DURANTE O ROUND 2

O SINO PRINCIPAL, COM O SUL AFRICANO JORDY SMITH, TRAZ O NOME DE TODOS OS 55 CAMPEÕES ANTERIORES DO EVENTO
FOTOS: CESTARI \ WSL

Caio Ibelli é um mês mais velho do que Gabriel Medina, ambos nasceram no final de 1993 e estavam juntos na histórica final do Quiksilver - King of The Groms de 2009, na França, na qual Medina conseguiu seu primeiro score perfeito de 20 pontos numa final. A carreira de Gabriel decolou antes, de forma vertiginosa, com duas vitórias no WCT já em 2011, o título mundial Pro Junior de 2013 e o WCT do último ano da ASP em 2014.

Vou aproveitar este blog para contar uma pequena história. Comecei a trabalhar mais forte na montagem de meu livro A GRANDE HISTÓRIA DO SURF BRASILEIRO a partir de 2012. De 2010 a 2012 eu trabalhei no marketing da HD, que estava sendo reativada pelo Grupo Eixo. Não participei da contratação de Adriano de Souza, que mais tarde veio a se transformar no segundo campeão mundial de surf profissional masculino do Brasil, com patrocínio de uma marca 100% nacional, mas cheguei a estruturar uma equipe com campeões mundiais como Pedro Henrique, Pablo Paulino, Leco Salazar (SUP) e outros grandes atletas, como Renan Rocha, Ricardo Ferreira, Lucas Chumbinho... Durante este processo de montagem da equipe (ainda em 2010), fui visitar meu amigo Luiz Henrique Campos, o Pinga, que cuidava da equipe da Oakley e tinha como um dos atletas que trabalhava desde muito jovem – Caio Ibelli. Minha ideia era colocar a HD no bico da prancha de Caio, mantendo a Oakley como patrocinadora de eyewear. Lembro bem de uma das frases espontâneas de Pinga nesta reunião: “Você está querendo me tirar o Neymar”. Vejam bem, estamos falando de 2010, era o ano da Copa da África e Neymar era uma estrela “potencial” do futebol mundial, como Medina e Caio. A ideia não vingou. Ibelli ficou na Oakley. Falamos sobre as carreiras de Gabriel, Adriano e do potencial de um surfista como Caio Ibelli... A “Brazilian Storm” nem estava no horizonte.
Chegou 2014, apesar de Neymar, o Brasil naufragou na Copa de Futebol e Gabriel Medina salvou a honra da nação em Pipeline, no final daquele ano. Veio 2015 e consolidamos a posição brasileira na (agora) WSL, com a vitória de Adriano de Souza e diversos outros títulos, entre eles a conquista do QS por Caio Ibelli.

Em fevereiro de 2010, Caio estava com 16 anos, eu assistia na internet a transmissão do campeonato da Pena realizado em Fernando de Noronha, com ondas imensas, paredes de 4 metros. Me chamou a atenção uma rasgada de backside dele com muita segurança, borda enfiada na água, torque, pressão acima e além de sua idade. Para mim ficou claro, ali naquele momento, que era um surfista fora de série. Mesmo antes de eu me tornar um jornalista de surf, sempre tive muito faro para perceber novos talentos surgindo, não só no Guarujá. Primeiro com Paulo Tendas e Tinguinha. Depois com Taiu e Jorginho Pacelli, atirados "beyond their years" (precocemente) nas ondas grandes de Pitangueiras. Com Caio foi a mesma coisa. Eu já havia reparado naquele loirinho arrepiando as valinhas entre a Ilha e o Maluf, mas aquele glimpse da onda gigante na Cacimba do Padre foi algo especial. Outro talento da Ilha de Santo Amaro, que eu trouxe para a equipe HD com 10 anos de idade foi Eduardo Motta, da Prainha Branca. Hoje ele está na Billabong e é um dos maiores vencedores das categorias de base do Brasil. Tudo aponta para uma carreira brilhante, é só seguir o esquema e os passos que foram dados por Mineirinho e Ibelli, com a visão de Pinga; ou ainda como Charles direcionou a carreira do enteado Medina. No caso de Mottinha, não tem como dar errado. Será outro grande talento do Guarujá.
Voltando ao caso de Caio Ibelli, naquele mesmo ano de 2010 ele já se apresentou como um dos poucos brasileiros, a estampar uma capa da revista Surfing da Califórnia, em uma onda de "responsa". Já com 17 anos a promessa estava se concretizando, no ano seguinte viria o primeiro título mundial.


CAIO IBELLI, INDONÉSIA, CAPA DA SURFING DE DEZEMBRO 2010
FOTO: JIMMY "JIMMICANE" WILSON

RECORTE DO ÁLBUM DE FOTOS DA WSL, FOTOS DO INÍCIO DE 2012. CAIO IBELLI FOI CAMPEÃO MUNDIAL PRO JUNIOR DE 2011, AO LADO DA HAVAIANA LEILA HURST

Vamos recordar um pouco mais. Esta final da temporada 2011 do Billabong Pro Junior foi disputada na Gold Coast, no point break de Burleigh Heads e Caio derrotou o australiano Garret Parkes, em um raro playoff, após acabarem empatados no ranking.

Dois anos antes foi a vez de Silvana Lima se transformar na primeira brasileira a vencer em Bells Beach. Silvana ficou por duas vezes com o vice-campeonato mundial, lutando bravamente em uma fase avassaladora de hexacampeã Stephanie Gilmore, adentrando esta década de 10.
APÓS A VITÓRIA DE 2009 SILVANA LIMA FEZ ESTA TATUAGEM
IMAGEM RECORTADA DO SITE EXPLORER GIRLS.COM

Silvana Lima saiu e regressou ao WCT feminino por duas vezes nesta década e continua sendo a grande expoente do surf feminino brasileiro da atualidade. Estamos trabalhando para cobrir esta lacuna da categoria feminina, isso em meio a fase mais gloriosa entre os homens.


SILVANA VOANDO EM BELLS, 2017. A ÚNICA BRASILEIRA ENTRE AS 17 SURFISTAS DE ELITE E A MAIS VELHA E TARIMBADA DAS TOP 17, AOS 32 ANOS
FOTO: ED SLOANE \ WSL

Voltando mais ainda no tempo, é importante lembrar o pódio de Teco Padaratz em Bells. Também segundo colocado na “longínqua” temporada de 2000, ano em que, durante o recesso de Kelly, Sunny Garcia sagrou-se como o segundo havaiano a erguer a taça da ASP (após Derek Ho – 1993). Teco foi o melhor brasileiro na elite em 1994 (8º) e em 2000 (10º), fora suas duas vitórias no WQS, primeiro campeão em 1992, quando houve a divisão oficial entre WCT e WQS e primeiro bicampeão do QS em 1999. Seu irmão Neco também seria um dos poucos bicampeões do QS nas temporadas de 2003 e 2004. Flávio Padaratz fez a final de Bells em uma bateria que foi levada para um pico secreto no belo cenário da Great Ocean Road, no Estado de Victoria.

SUNNY GARCIA E TECO PADARATZ  RIP CURL PRO BELLS 2000
FOTO: ARQUIVOS DA WSL

Em 2013 Adriano de Souza foi o primeiro surfista da categoria masculina a conquistar o badalado sino. A euforia foi tanta que Mineirinho arrancou o sino e isso entrou para a história também.

Voltando para 2017, de Bells que tem campeonatos realizados desde o início dos anos 1960, a elite prepara as malas para enfrentar as ondas de Saquarema. Quase tão emblemática quanto Bells, a praia de Itaúna entrou para o cenário das competições em 1975, com ondas espetaculares e a vitória de Betão Marques no primeiro Festival Nacional lá realizado. Saquarema foi o palco de eventos incríveis e quando foi inaugurado o Circuito Brasileiro de Surf Profissional – ABRASP, em 1987, estava presente com o Town & Country Pro, vencido por Fred d’Orey. Apenas em 2002 a praia de Itaúna foi a sede da etapa brasileira do WCT da ASP, com vitória de Taj Burrow.

REPRODUÇÃO DE UMA DAS PÁGINAS DUPLAS DE ABERTURA DO
VOLUME 1 DO LIVRO A GRANDE HISTÓRIA DO SURF BRASILEIRO

RECENTEMENTE FORAM REALIZADAS ETAPAS DO WQS EM ITAÚNA, COM MUITO SUCESSO E ONDAS DE RESPEITO
FOTO: PEDRO MONTEIRO
ARTE DE FERNANDO MESQUITA

A expectativa é grande, a partir de 9 de maio de 2017, com o início do período de espera (até dia 20), da quarta etapa do WCT da WSL. Aguardem uma análise da participação brasileira neste evento aqui no blog HISTÓRIAS DO SURF, bem como uma outra postagem com a PARTE 2 da entrevista com Maraca, uma homenagem mais profunda a este grande surfista brasileiro, que passou seus últimos dias morando em Saquarema.
Todas estas informações e muitas outras estarão presentes no livro A GRANDE HISTÓRIA DO SURF BRASILEIRO, que tem a previsão de ser lançado a partir do final deste ano.

A abertura do livro (em cada um de seus 5 VOLUMES de 132 páginas cada - obra TOTAL 660 páginas) prevê a apresentação de três fotos históricas, com imagens representativas de SURFISTAS \ PRAIAS \ CAMPEONATOS nas páginas duplas de abertura. Além da imagem acima, já estão montadas as artes abaixo, com projeto gráfico de Fernando Mesquita.


(click e amplie as imagens que dá para ler)


E um esboço da capa (que ainda pode sofrer alterações).
Lançamento do livro previsto para novembro 2017.
LEGENDAS DA CAPA (click e amplie)

Convido novos potenciais apoiadores ao projeto, que inclui este blog, para participar. Em fevereiro deste ano o projeto do livro (apenas para o VOLUME 1 de 5), foi aprovado pela Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo no PROAC-ICMS, com o Número 21390, aberto para consulta pública.


Para mais informações: WWW.HSURFBR.COM.BR

domingo, 26 de março de 2017

MARACA, PARTE 1

Legend de primeira grandeza

Rossini Maranhão Filho é um dos mais importantes surfistas que o Brasil já teve. Ele nos deixou em novembro de 2016 e durante todos os ANOS 2000 já era venerado como um de nossos grandes “tribal elders” - anciões da tribo. Vamos conhecer um pouco mais profundamente a sua história.

NA CASA DE MARACA EM SAQUAREMA, ONDE ESTIVE EM AGOSTO DE 2015, APROVEITEI A OPORTUNIDADE PARA CAPTURAR, COM MEU CELULAR, UM POSTER COLOCADO NA PAREDE DE SUA SALA
MOMENTOS DE AÇÃO DE SUA CARREIRA
FOTO: DRAGÃO

Vocês já conhecem meu estilo neste blog, que anda em paralelo com o trabalho de pesquisa para a construção do livro A GRANDE HISTÓRIA DO SURF BRASILEIRO. Finalmente consegui a aprovação com a Secretaria da Cultura de SP para lançar (o primeiro de 5 VOLUMES), a velocidade dependerá da captação dos recursos aprovados. A obra completa ficará disponível ao longo de 2017, 2018 e 2019.
Este blog vai estar trazendo e deixando para consulta dos interessados, muito mais informações do que no livro. Pela densidade e profundidade aqui apresentadas, estas histórias escapam do escopo mais informativo e abrangente do livro impresso e a limitação total de páginas (660 – 132 POR VOLUME) que estou prevendo e que estarão muito mais ilustradas do que carregadas de texto.
Neste contexto, aproveito esta oportunidade de reverência ao mestre Maraca, supremo contador de histórias, para deixar praticamente a íntegra, com pouquíssimas edições, do que gravei com ele mesmo contando a sua história.

ROSSINI MARANHÃO FILHO, NO JARDIM DA CASA DE JACQUES NERY EM SAQUAREMA, LOCAL EM QUE FOI COLHIDO ESTE DEPOIMENTO
FOTO: JACQUES NERY

Estas sessões de gravação ocorreram em agosto de 2015, aqui colocarei o início da história de Maraca, até ele voltar do Hawaii no meio de 1970. Seguindo os passos de Penho, ele foi o segundo brasileiro a passar uma temporada surfando no Hawaii e chegou para a Era do Píer, mas isto estará na PARTE 2 desta homenagem (breve aqui neste blog).
Por hora deliciem-se com o início de sua história no surf:

“Meu nome completo é Rossini Maranhão Filho, nasci em Belém do Pará em 3 de março 1950. Meu pai era diretor do setor aduaneiro e minha mãe trabalhava no Ministério da Fazenda. Meu pai trabalhava muito nos limites do Brasil, nas fronteiras. Mudamos bastante, fomos morar em São Paulo, voltamos para o Rio. Eu sempre continuei com o surf.
Com quatro anos de idade minha família veio do RS (Porto Alegre) para o Rio de Janeiro, em 1954 comecei a frequentar Copacabana, aos 6 anos já pegava jacaré de peito e era íntimo das ondas de Copacabana e das valas. Em Copacabana, antes de fazerem o aterro, quebravam ondas enormes lá de fora, era como se fosse uma Macumba, só que tinha uns bancos de areia e as ondas vinham abrindo grandes até a beira com quebra-cocos enormes. O Posto 5 ficava perfeito, com vento sudoeste o Baixio quebrava perfeito. As ondas quebravam desde o Leme, até o Posto 6 lá de fora, eram maravilhosas.
Eu adorava o contato com o mar. Comecei pegando ondas de jacaré de peito, com pés de pato. Depois tinha uma tabuinha, chamada Oceania, a gente ia deitado. Pegávamos ondas enormes de até quase 3 metros e vínhamos deitados com aquelas tabuinhas, no corte, até a vala. Quando as ondas abriam ficava muito bom em Copacabana e desde os 6 anos eu tinha contato com o mar, que eu adorava, morava ali em Copacabana e era muito bom aquilo (1956). Pegávamos ali no Posto 5, na Miguel Lemos, Bolívar... E o Posto 6 quando o mar ficava grande.

PRANCHA SIMILAR A UM MODELO OCEANIA

Em 1963 teve uma ressaca gigante e nessa época todos nós já pegávamos de madeirite, nós havíamos evoluído da prancha Oceania para a madeirite, pranchas da Ilha do Governador, de compensado naval, que pesavam uns 15 quilos. Tinha também as pranchas da R. Francisco Otaviano. Desde de 1956 eu não saía de dentro d’água. Depois das madeirites vieram as pranchas de fibra. Logo começaram a chegar as pranchas importadas.
Nesta ressaca de 1963 que eu falei, o Posto 6 ficou “olímpico” durante uma semana, esta ressaca jogou muita areia no Posto 6 e ali, quase nunca quebrava, só uma ondinha bem perto da pedra quando dava o vento sudoeste. Ela batia assim na pedra e vinha, mas nunca tinha muita onda vindo lá de fora. Quando aconteceu esta ressaca em 63 elas vinham lá da ponta da pedra, quase na altura do canhão do Forte de Copacabana e parecia que era um point break de direitas. Acumulou uma quantidade de areia jamais vista no Posto 6. Foi uma coisa fora de série, vinham ondas sem parar, lá de fora. E existiam poucas pranchas, não tinha crowd era a mesma galera de sempre. O crowd maior era o pessoal com Planondas e tabuinhas Oceania. Durante seis meses ficou quebrando olímpico ali, era um espetáculo, você vinha lá de fora em ondas muito especiais para longboard. Ela não fechava, era tipo Waikiki e você surfava em um longo caminho até a beira, formou um Point em Copacabana, depois foi saindo a areia, assoreando, mas mesmo assim ás vezes ainda dá umas ondas lá até hoje. Se der uma ressaca de leste e jogar areia ali no canto, é um bom point para quando entra o vento sudoeste. Hoje é point dos Stand Up, um point break.
Minha primeira prancha de madeirite foi com 12 para 13 anos, logo depois vieram as pranchas de fibra, depois de dois anos, eu logo tive uma. Aí começou o surf constantemente de longboard, fazíamos aqueles nose rides, que era a manobra máxima e o Arpoador era a praia local, era muito legal a gente surfar. Basicamente a gente surfava no Arpoador em dias de leste e quando dava o vento sudoeste íamos para o Posto 6, ou o Posto 5. Para quem gostava de pegar onda como nós, não tinha nenhum dia sem ondas. Começamos a pegar vários tipos de mares e isso, associado à atividade física, que era importante. Eu fui nadador do Clube Fluminense, sempre tive um relacionamento com a água, muito grande. Surfar para mim foi a maior descoberta do mundo e eu estou nessa até hoje.
Minha segunda prancha foi uma Royal Hawaiian, eu fui morar nos Estados Unidos como intercâmbio cultural e quando eu voltei eu trouxe essa prancha, era uma coisa pré-moldada, tipo uma pop up, mas ela era muito boa, esta foi a minha primeira prancha de fibra, uma 9’4”, depois eu vendi esta prancha e consegui uma 9’2” - Con Surfboards, wing nose, ela era branca e tinha uma lista vermelha no bico e foi com esta prancha que começou aquele show do David Nuuhiwa de andar até o bico, o longoboard virou um show de nose rides, depois que passou o filme Endless Summer (1967). Então aquelas manobras, com estas pranchas longboards melhores, foi o ápice do longboard. Até o Penho chegar com aquela mini model e a gente decolar e começar a fazer pranchas aqui.
Minha terceira prancha foi uma Greek 7’7”, que um marinheiro americano chegou aqui com ela, logo depois que o Penho chegou. Em 1968 esse marinheiro trouxe uma mini model, que eu comprei por US$ 250,00. Usei muito essa 7’7” que era uma pin tail muito boa. Então como não havia mini models, só tinha a do Penho, a gente recortava os pranchões e achava que fazíamos mini models, mas não eram mini models, era uma coisa meio diferente.
Mas durante todo este período a gente nunca deixou de pegar ondas por um motivo ‘Ah, não tem prancha’, ‘Ah, não tem parafina’, a gente se virava, aparecia prancha, aparecia parafina e aparecia o tempo também para surfar e ficar dentro d’água. E era isso que a gente queria, estar dentro d’água com uma prancha boa...”

Maraca começa a fazer outras divagações que estarão na Parte 2.

A PRIMEIRA VINDA A SAQUAREMA
Rossini Maranhão, mais uma vez com a palavra:

“Naquela época era diferente, olha só, essa evolução toda que eu falei, das pranchas mudando, aparecendo parafina, antes a gente não tinha nada...
A primeira vinda para Saquarema ainda foi na época dos longboards, 1964, 65, 66 nós surfávamos na Barrinha, que sempre foi um point break maravilhoso de direitas e ali sempre foi muito perfeito. Depois nos dias maiores fomos até Itaúna e o mar estava de leste, tinha tubos para a direita maravilhosos, impecáveis. Começamos a perceber que a direita de Itaúna era constante, boa, regular e fácil de entrar de longboard, porque você podia circundar, pegar a onda, sair e voltar logo e era uma onda emocionante, porque ela tinha um poder, uma força muito boa. Percebemos que quando subia o mar dava as esquerdas e nos dias menores as direitas, embora com água gelada e sem roupa, nós entrávamos e ficávamos menos tempo, mas ficávamos.
Uma das primeiras viagens que fiz estava com Tito Rosemberg, ele que me colocou o apelido de Maraca.”

IMAGEM RETIRADA DO ÁLBUM DE FOTOS DO TITO ROSEMBERG
PUBLICADO PELA MARCA TOTEM DE FRED D’OREY

APELIDO
“Todo mundo me chamava de Maranhão, Maranhão... Alguns me chamavam de Rossini, mas na época eu pulava tanto na prancha que o Tito chegou e falou,’Pô tu parece uma Maraca pulando.’ E aí pegou o Maraca, que foi uma coisa fortíssima. E o Maraca se tornou um bom atleta, um cara que se apresentava com um surf bacana de ver e todo mundo ficava amarradão. Mas amarradão mesmo.

E nós viemos explorando a costa toda no jipe dele, ele tem até umas fotos de vários lugares. Quando nós passamos aqui o mar estava gigante em Saquarema, fomos até Massambaba e estava maior ainda e nós ainda fomos até Búzios e Geribá, pegamos ondas em Geribá (tem uma foto da gente lá em Geribá), voltamos para cá – Saquarema, no dia seguinte e o mar estava enorme, caímos com umas ondas gigantescas. Aí a gente começou a surfar ondas grandes aqui constantemente.”

PERU E HAWAII
“Antes de eu ir para o Hawaii vendi minha prancha Greek (terceira prancha). Eu levei ela para o Peru para participar do campeonato internacional em 1968, foi a minha primeira viagem internacional, o campeonato era patrocinado pela Aero Peru, isso foi em fevereiro de 1968. Participei do campeonato em Punta Rocas, cheguei lá na hora da minha bateria, não me dei bem, mas surfei com a minha Greek. Eu fiquei em terceiro lugar na bateria, era a primeira vez que eu surfava em Punta Rocas. Na bateria não lembro quem estava, mas era só gente famosa da época. No campeonato estavam Barry Kanaiaupuni, Ben Aipa, Fred Hemmings, Gordo e Flaco Barreda, Chino Malpartida, Fernando “Pocho” Awapara, Butch Van Artsdalen, Eddie e Clyde Aikau, Mike Purpus, era só gente muito boa.
Nessa viagem fiquei mais de dois meses e meio, peguei todas as ondas dali, fui para Chicama e ainda desci uma onda em Pico Alto com essa Greek, 7’7”. Neguinho falou ‘Pô cara, não acredito’ e todo mundo ficou chocado. Virei uma vaca lá, em Pico Alto gigante, que eu pensei que iria morrer. Eu consegui dropar uma onda de 23 a 25 pés, de remar e entrar nela, mas aconteceu que no final do drop veio um calombo e quando a prancha passou em cima eu voei longe e a onda se mexe muito rápido e pra frente em Pico Alto, então eu fui escorregando na face da onda, uns 6 a 8, 10 metros na face até tomar não sei quantas toneladas de água em cima da minha cabeça e é um caldo muito forte, eu não conseguia subir e quando você sobe a camada de espuma é muito alta, você está na superfície e mesmo assim fica aquela espuma. Eu estava sem cordinha e levei quase uma hora, ou 45 minutos, para sair do mar. Tem até uma foto que saiu em uma revista, não lembro se tinha o drop, ou eu caindo, mas tinha uma citação sobre o fato: ‘Sopresamente el brasileño Maraca entrou em Pico Alto’. O Clyde Aikau olhava para mim e falava ‘puta que pariu!’ E eu ainda peguei uma onda antes de virar essa vaca toda, porque veio uma de 26 pés e tive de sair remando e foi nessa rebarba que eu tomei uma na cabeça. Porque eu tive de entrar na onda da frente de qualquer jeito, para não tomar a de trás que era maior ainda, aí eu entrei na da frente que tinha uns 20 e poucos, mas acabei tomando a série toda.
Mas eu dei um drop que eu nunca mais vou me esquecer. Só que eu acabei saindo amarelo de dentro d’água, com medo. Minha prancha foi parar em El Silêncio, o pessoal todo me esperava na beira da água. Você tem que nadar aquilo tudo, lá de fora, ainda com aquelas maláguas te queimando, depois encarar aquele inside de 3 metros de altura. Aquela arrebentação tipo um Macumbão, sair e pegar um jacaré de peito. Eu fui parar, sei lá, em Señoritas onde eu consegui sair. Você tem que ter um preparo muito bom. Um pulmão de primeira para aguentar. Graças a Deus, como eu era formado em Copacabana e era nadador, o meu conceito sempre foi de ser atleta. Atleta que cuidava da saúde em benefício do esporte, para poder ter uma performance legal. Eu sempre fui como atleta, amarrado em fazer uma super-ultra performance legal, todo mundo sabe disso.”
...

MARACA - TEMPORADA HAWAII 1969 \ 1970
“Eu cheguei lá em setembro e saí de lá já era quase março, em fevereiro.
A viagem para o Hawaii foi o seguinte: Eu estava no segundo ano de administração na UEG – Universidade Estadual da Guanabara e tranquei minha matrícula em junho de 1969. Na época forte do AI-5, muito perigoso, na minha faculdade tiveram tiroteios, ataques e as pessoas sumiam. E como os jornais e as televisões falavam mal dos surfistas naquela época, que não eram o tipo de pessoa ideal, que eram vagabundos e ‘otras cositas más’, os surfistas eram muito discriminados, eram pessoas que não eram bem vistas pela sociedade, porque gostávamos de deslizar sobre uma onda e isso era considerado anormal. Então eu falei, pô, vou dar um tempo nos EUA, fui para a Califórnia, para Los Angeles com o Mário Papinha (Barcellos hoje mora em SP), passei antes no Peru e estava muito frio para surfar, em julho o tempo não é muito bom lá e eu fui para a Califa.
Bom, eu estava no meio do segundo ano de administração e fui para lá e fiquei na Califa, morando em Malibu Canyon, fui para o México. No começo eu pegava ondas em Venice, Huntington, andamos por ali, fiquei um mês de férias. Eu e o Mário ficamos amigos de uns brotos assim maravilhosos “California Girls”, e a gente ia curtir a Disneylandia todos os dias, não era só para crianças, tinha shows, casas de festa e era o ponto de encontro das gatas americanas. As mais maneiras estavam ali, a frequência não era de crianças e sim de gatinhas.
Fiquei trabalhando lá até setembro e a dona do lugar onde eu trabalhava falou, eu devo para você uns US$ 600, então eu vou te acertar. Eu liguei para o aeroporto e perguntei quanto era uma passagem para o Hawaii, era uns 150 dólares. Falei: ‘Reserva aí para Rossini Maranhão Filho, passaporte número tal, tô embarcando agora’, peguei um taxi e fui para o Hawaii naquele dia.
O Mário desistiu, ele voltou para o Rio, a mãe dele não deixou ele ir para o Hawaii. Cheguei lá no Hawaii não tinha nenhum brasileiro, era 5 de setembro de 1969, o Penho já tinha voltado fazia um ano e meio em 1968, cheguei lá ninguém sabia onde era o Brasil, quem era o Penho. Eu fiquei lá residente com os peruanos. Eles eram um exército de surf. Fiquei com Chino Malpartida, Gordo Barreda, Ivo Hanza, Flaco Barreda, Pocho Awapara, só o pessoal de ondas grandes. Eles tinham pranchas 9’4”, 9’8”... Perguntavam, você vai fazer que prancha? Uma 9’8”. Ahhh, meu Deus do céu. E ficamos ali em Sunset e todo dia morando ali e eu já tinha conhecido o Clyde e o Eddie Aikau no Peru.
No começo do Hawaii eu cheguei lá com uma 7 pés e fui querer cair em Sunset e acabei perdendo a prancha na correnteza. Aí fui mandar fazer uma 7’10” e depois surfei com uma prancha do Charlie Galanto, que me shapeou de graça. O Ben Aipa me fez uma 7’7”. Depois o Charlie Galanto me fez uma 7’10”. Lá eu não trabalhei com pranchas, trabalhei um pouco como jardineiro. Pintou um serviço, me ofereceram e como eu gosto de jardinagem, quando eu não estava surfando eu cuidava do parque lá em Waimea Falls, porque uma menina que eu estava saindo era de lá, era a diretora de paisagismo do Waimea Falls e ela viu que eu gostava de plantas e como eu aqui em Saquarema também planto papaya, planto coqueiros e sei da vida das plantas, ela me convidou. Eu ganhava 11 dólares a hora para cuidar do jardim do Waimea Falls Park. Trabalhava toda a semana em Waimea Falls, ganhava uma grana lá.
Naquela época não tinha dinheiro de papai, de mamãe, nem patrocínio não. Era salve-se quem puder. Eu fiquei 6 meses até março de 1970. Nos primeiros dias, até outubro eu estava ainda meio cru naquelas 'mórras'. Muita ondulação de norte, swells meio traiçoeiros, você está lá dentro e vem uma onda lá na casa da cacilda. Aí fui acostumando, pegando ondas de 12 pés, 15 pés, aí teve um dia de 18 pés e eu acabei caindo em Waimea, peguei duas a três ondas boas.
Eu pegava bons tubos, em Sunset eu dei cada batida de backside, inacreditável. Eu acertei uma lá, em um dia de 12 pés, que foi bem frontal e que quando eu reentrei eu falei eu vou cair. Mas eu caí vertiginosamente, em uma ‘angulagem’ 90 graus, prefeita. Virei e a placa caiu em cima de mim, mas eu completei a manobra, virando e cortando assim, igual navalha. Uma Ferrari na curva, largando borracha.
Joey Cabell me falava, “If you make a backside snap like that, you’ll gonna be world champion”, e eu me inspirava nas batidas do BK que eram batidas de frente. E eu comecei a subir reto e pegar velocidade que nem o Jackie Baxter, o estilo do Billy Hamilton e misturei com a agressividade do Ben Aipa, mais tudo de bom do Jock Sutherland, que era um cara cool. Então, meu estilo foi baseado nesse pessoal do surf, que não era o pessoal do longboard não, era o pessoal que surfava bem em ondas grandes. Eles faziam um surf hot dog. A gente botava para dentro em canudos de 12 pés. O Jackie Baxter e outras pessoas viram eu lá andando dentro de canudos de 12 pés. De backside, relax, lá dentro e neguinho falava, ‘Pô, o tal do Brazila, heim!!!’
Finalmente eu comecei a surfar do jeito que eu queria. Eu tinha entrado em forma, acabei me acostumando com as ondas do Hawaii. Você remando em Sunset, você rema em qualquer lugar, o resto do mundo parece brincadeira. Se você remar em Sunset, folgado, você rema em qualquer lugar do mundo muito bem. Até em Waimea, Pico Alto, Todos Santos, qualquer lugar. Baixio, Saquarema...
Sunset para mim era a onda preferida, porque eu morava ali em Sunset Point. Ali também não quebrava pranchas como Pipeline, e eu não estava com muita grana, então eu consegui ficar com uma de minhas pranchas sem quebrar durante toda uma temporada, embora eu enfrentasse situações para lá de esdrúxulas.
Eu tinha essa 7’11 e uma 7’6”. Caí em Waimea de 7’11”, fui pra lá com o Ivo Hanza e ele falou, vamos lá Brazila, que eu te dou uma força, nesse primeiro dia que eu surfei Waimea dropei seis ondas, um dia com 20 a 22 pés. De manhã estava o Corky Carroll que quebrou três pranchas. O terral estava muito forte e quase ninguém conseguia entrar nas ondas e de tarde parou o vento, ficou mais mellow. Ficou o Waimea mais perfeito do mundo, as ondas vindo no mesmo lugar, não tinha uma onda maior do que a outra, mas estava com 20 para 22 pés.
Depois deu aquele swell famoso, gigante do Greg Noll, de 1969 eu estava lá. Nós não fomos surfar em lugar nenhum, subimos o Sunset Hill para fugir do maremoto. Pare a gravação que eu te conto a história toda.”
NÃO CONTOU

Com Maraca fiz quatro sessões de gravação em agosto de 2015, algumas delas ao lado de Penho e Otávio Pacheco. Jacques Nery tem parte disso registrado em vídeo.
Já coloquei neste blog a imagem abaixo. Isso é uma página dupla da revista Fluir de outubro 2015, a edição de 32 anos, o último aniversário da saudosa publicação. A matéria, concebida pelo editor chefe na ocasião, Adrian Kojin, tinha 14 páginas e era dedicada a Penho (Carlos Eduardo Siqueira Soares), o primeiro brasileiro a ir surfar no Hawaii e o fecho da matéria era esta página dupla.

REPRODUÇÃO DA FLUIR #360
BAIXEM ESTA IMAGEM E AMPLIEM EM SEU COMPUTADOR QUE DARÁ PARA LER

Este é apenas mais um trecho das entrevistas que fiz com Maraca. Aguardem a Parte 2, com muito mais informações e fotos, em breve aqui.
Para fechar, as últimas explicações de Rossini sobre esta viagem e seu regresso ao Brasil, pronto para atacar as ondas do Píer de Ipanema.
Maraca: “Fui pedir o visto para morar no Hawaii, o cara da imigração do FBI falou que dava se eu ficasse lutando dois anos no Vietnam. Preferi voltar para o Brasil. Na volta parei na Califórnia, fiquei com o Tito um tempão lá, surfando Sunset Cliffs. Depois eu fui para o México. Aí eu fui para o Peru e voltei para o Brasil no meio de 1970. No Peru cheguei no dia do evento Internacional de Tablas Havaianas em 1970, cheguei atropelando Punta Rocas. Lá tem um hábito que quando você via uma onda boa, os caras jogavam o chapéu. O Rico viu a minha direita. Porra! Chapéu voou pra caramba lá.”

Maraca tinha um jeito único e colorido de contar as histórias. Com certeza minha ideia era voltar a Saquarema (o que farei este ano ainda – para montar o capítulo PICOS DE SURF sobre a região), entregar um exemplar desta Fluir, em mãos, para ele e Penho. E buscar mais destas maravilhosas histórias do Maraca. Isso ficou na vontade.
Mas o legado de Maraca é muito poderoso. Na Parte 2 desta homenagem, que será ainda maior, muitas outras passagens e imagens ficarão “posterizadas” aqui em meu blog.

IMAGEM RECORTADA DO SITE DA REVISTA SURFAR EM NOVEMBRO DE 2016. DIA TRISTE PARA A MEMÓRIA DO SURF BRASILEIRO
FOTO DE FÁBIO MINDUIM NO ARPOADOR

As performances de Maraca, quando ele voltou ao Brasil, IMAGINEM?! Fresco de uma temporada havaiana, foram antológicas. Chegou junto em campeonatos de Ubatuba (vice), Píer e Saquarema. Arrebentou e fez escola nas ondas brasileiras.

Se eu pudesse resumir o surf de meu amigo Maraca em uma única palavra, esta seria DESPOJADO. Este é apenas um aperitivo desta homenagem que pretendo prestar ao grande Rossini Maranhão Filho.

Para finalizar, mais uma imagem do ídolo. Surfando no Arpoador, recém-chegado do Hawaii.

ESTA FOTO ESTÁ NO POSTER DA CASA DELE 
E AQUI PEGUEI DA INTERNET
AINDA PRECISO PESQUISAR QUAL O FOTÓGRAFO, ENCONTRAR ESTE ORIGINAL E É UMA IMAGEM QUE GOSTARIA DE PUBLICAR, EM ALTA DEFINIÇÃO, EM MEU LIVRO

Para este projeto do livro A GRANDE HISTÓRIA DO SURF BRASILEIRO já entrevistei ao redor de uma centena de surfistas, outras tantas ainda agendarei. Na medida em que o projeto for evoluindo, considero este blog tão valioso quanto o próprio livro e darei meu melhor para trazer um alto padrão de qualidade e fidedignidade a ambos.

Para buscar mais informações: WWW.HSURFBR.COM.BR


domingo, 5 de março de 2017

DO PASSADO AO PRESENTE

A história antiga e a escrita em tempo real
As postagens deste blog voam entre incríveis relatos do surf embrionário no Brasil para momentos marcantes que vivemos na atualidade: a fase mais heroica competitivamente do surf brasileiro. E 2017 começa bem.

JESSÉ MENDES DISPAROU NA PONTA DO RANKING DO WQS DA WSL, APÓS SUA VITÓRIA NO AUSTRALIAN OPEN OF SURFING, NA EMBLEMÁTICA PRAIA DE MANLY BEACH, PALCO DO PRIMEIRO MUNDIAL DE SURF, AINDA AMADOR, EM 1964 E VENCIDO PELO AUSTRALIANO MIDGET FARRELLY
IMAGEM RECORTADA DO SITE SURFING NSW

A “tempestade brasileira”, tomou força novamente neste início de 2017 e as expectativas parecem boas para o início do WCT a partir de 14 de março. O surfista do Guarujá, Jessé Mendes, com um segundo lugar em Newcastle e a vitória em Sydney toma uma liderança do ranking ainda mais forte que a do italiano Leonardo Fioravanti em 2016, que fez dois vices na Austrália. Jessé Mendes também acabou bem no final de 2016 e deverá ter a oportunidade de participar de algumas etapas do WCT durante a atual temporada.

PÓDIO, COM JESSÉ E JULIAN WILSON E TODAS AS NOTAS DA FINAL AO LADO
IMAGEM RECORTADA DA TRANSMISSÃO DO AUSTRALIAN OPEN

A bateria decisiva foi uma das mais empolgantes do evento. Com a prioridade e faltando menos de 10 minutos para o encerramento, Jessé liberou uma onda para o australiano (principal cabeça de chave do evento) e Julian não perdoou arrancando um 9,33 da pequena esquerda. Erro tático! Os campeonatos de surf são ancorados em diversos ingredientes, o mais óbvio é o talento natural dos atletas. O preparo físico, a estratégia, posicionamento no mar, escolha de ondas e a sorte (por vezes divina), entre outras peculiaridades, também compõem o resultado final, via de regra ditado por um julgamento correto.
Não muito tempo após a onda surfada por Julian, já com sua nota anunciada, veio a onda que Jessé queria. E ele não deixou por menos. Virou a bateria a seis minutos do final, deixando Wilson precisando de uma nota 8,81 e esta onda não veio. Sangue frio, tarimba, não tremeu na base na hora decisiva.

RECORTE DA TRANSMISSÃO AO VIVO DA ONDA VENCEDORA DE JESSÉ

 JESSÉ MENDES E PAULO KID TÊM UM RELACIONAMENTO DE LONGA DATA. KID JÁ FOI UM DOS GRANDES COMPETIRES BRASILEIROS, VENCEDOR DE ETAPA DA ABRASP E QUE DEPOIS DE ABANDONAR A CARREIRA DE ATLETA PASSOU A TREINAR DIVERSOS SURFISTAS PROMISSORES. IMAGEM RETIRADA DO SITE DA REVISTA SURFAR

OUTRO GRANDE TÉCNICO E EX-SURFISTA PROFISSIONAL É LENDARO DORA, PAI DE YAGO DORA. FOTO RETIRADA DO INSTAGRAM DE YAGO

Leandro Dora, em seus tempos de Abrasp, usava o nome “artístico” de Leandro Breda e surfava pelo Estado do Paraná. Da mesma forma que Paulo Kid, Leandro tem vários atletas sob sua orientação, como o campeão mundial júnior Lucas Silveira; o próprio filho Yago; foi instrumental na carreira do saudoso Ricardinho dos Santos; e estava presente, ao lado de Adriano de Souza, na ocasião de seu título mundial da WSL em 2015.
A experiência e vivência em baterias destes técnicos é um dos grandes trunfos que temos para o atual sucesso desta Brazilian Storm. Além do início de temporada fulminante por parte de Jessé Mendes ainda temos de destacar a vitória de Yago Dora em Newcastle e o vice-campeonato de Adriano de Souza em Pipeline.

PÓDIO DE NEWCASTLE 100% BRASILEIRO, COM JESSÉ (VICE) E YAGO (CAMPEÃO) EM PLENA AUSTRÁLIA. NAS FOTOS DE AÇÃO ABAIXO, YAGO E ALEJO MUNIZ VOANDO. REPRODUÇÃO DE WEB PAGE DA WSL

ADRIANO DE SOUZA RUMO A SUA TERCEIRA FINAL EM PIPELINE. FOTO RETIRADA DA COBERTURA DO VOLCOM PIPE PRO 2017 NO SITE WAVES

Adriano já tem um título do Billabong Pipe Master (em 2015) e duas finais do Volcom Pipe Pro – 4º em 2014 e 2º em 2017. Adriano e Gabriel (ao lado de Wiggolly Dantas e Ian Gouveia), são alguns dos surfistas brasileiros do primeiro escalão que investiram tempo e treino, muito treino, nas decisivas ondas de Pipeline. Dividendos estão sendo e serão colhidos.

Estamos na porta da temporada 2017, com grandes expectativas para o surf brasileiro. E muitos surfistas internacionais aptos para fazer frente.

A história recente e as origens do surf brasileiro estarão documentadas no livro A GRANDE HISTÓRIA DO SURF BRASILEIRO previsto para ser lançado no final deste ano. Finalmente o projeto cultural foi aprovado na Secretaria de Cultura. Acompanhem todos os desdobramentos e novidades neste blog.


Conheçam detalhes em: http://www.hsurfbr.com.br/